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Veganismo cresce no Brasil

Cris Olivette
| Tempo de leitura: 6 min

Químico industrial, Rosemir Folhas tinha uma empresa de produtos químicos usados no acabamento de calçados, até resolver desbravar um novo mercado. "Em 2013, criei a Vegano Shoes, porque não havia no País nenhuma empresa que oferecesse calçados de qualidade que fossem totalmente veganos."

Segundo ele, o mais importante nesse tipo de calçado é saber a origem do material pois, além de não usar produtos de origem animal, a matéria-prima tem de ser sustentável. "A aceitação tem sido muito boa. A cada dia mais pessoas se tornam veganas ou vegetarianas e estão dispostas a pagar até um pouco mais por um produto que seja realmente sustentável e não gere poluição."

Folhas afirma que o faturamento melhora a cada ano. "Para este ano, a expectativa é mantermos a mesma faixa de crescimento, porque investimos bastante em matéria-prima e designer, com foco na coleção outono-inverno", conta.

O bom desempenho da Vegano Shoes reflete o interesse crescente das pessoas pelo assunto e confirma dados de levantamento feito pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), realizado por meio da ferramenta Google Trends.

"Nos últimos nos houve aumento nas buscas e no interesse pelo tema que varia de 150% a 250% ao ano. A demanda cresce exponencialmente e ainda é maior que a oferta. Com isso, as oportunidades de empreendimentos nessa área são muito promissoras e devem crescer nos próximos anos", afirma o secretário executivo da SVB, Guilherme Carvalho.

O prêmio de melhor coxinha do ano, concedido pela SVB à criação dos alunos de graduação em gastronomia Celso Fortes e Michelle Rodriguez foi o ponto de partida para o lançamento do Açougue Vegano, no Rio de Janeiro. "Criamos uma receita de coxinha de jaca e participamos do concurso. Com o prêmio, resolvemos ampliar o cardápio e levar o projeto do açougue à frente", diz Fortes.

Inaugurado em janeiro, o Açougue Vegano já acumula 7,5 mil seguidores no Facebook e outros dois mil no Instagram. "No primeiro dia de operação vendemos todo o estoque que havíamos preparado para um mês. Em dez horas liquidamos 1.100 coxinhas de jaca, centenas de hambúrgueres de shimeji e shitake, espetinhos de soja, entre outras iguarias", conta. Tamanha demanda fez a equipe triplicar em pouco tempo. Hoje, o negócio emprega 13 pessoas, além dos sócios.

Publicitário há muitos anos, Fortes diz que o insight ocorreu durante uma conversa na bancada da cozinha da faculdade. "Michelle comentou sobre a dificuldade que os adeptos do veganismo têm para encontrar alimentos saborosos. A ideia foi tão irresistível que comprei o domínio www.acouguevegano.com.br assim que cheguei em casa."

Segundo ele, o serviço de entregas vai entrar em operação no próximo dia 15. "Antes de iniciarmos o serviço, já temos 700 e poucos pedidos efetuados. Muitas famílias fizeram encomendas para vários meses", comemora. O empresário conta que todas as receitas foram testadas pelos colegas e futuros chefs, dentro da faculdade de gastronomia, que não são veganos. "Hoje, 50% das pessoas que frequentam o açougue não são veganas e nem vegetarianas, o que achamos muito legal. É interessante que todos tenham essa experiência algumas vezes por semana, faz bem para a saúde e para o ambiente", ressalta.

Fortes conta que o cardápio é composto de 16 itens e que a marca foi convidada a vender os produtos no ALL Carnes, açougue tradicional do Rio de Janeiro. "Até o meio do ano lançaremos uma unidade em um shopping de São Paulo." Com investimento de R$ 35 mil, os sócios esperam chegar ao final do ano faturando em torno de R$ 700 mil com a primeira unidade.

Hambúrguer com selo vegano

A fundadora da marca Flor de Sal Culinária Vegetariana, Iara Carvalho Pinheiro Machado, conta que a produção de hambúrgueres nos sabores funghi, cenoura, castanha do Pará e curry ainda é feita na cozinha de sua casa. "Nosso produto é artesanal e quero que continue assim, mas como a demanda é crescente, acho que até o meio do ano deixaremos de ser microempreendedor individual (MEI) para virar microempresa. E até o final do ano teremos de ocupar um espaço maior."

O processo de produção foi iniciado em 2012. "Meu filho gostava muito de hambúrguer de carne, mas virou vegetariano há sete anos. Então, comecei a desenvolver o produto a partir de uma experiência que já tinha tido durante a época em que fui macrobiótica. Por isso, já sabia como trabalhar com a soja."

Iara diz que os sabores foram testados em um ateliê que a filha divide com outros artistas na Vila Madalena. "A aceitação foi boa e a demanda começou a crescer, afinal, os nossos produtos têm sabor, textura e aroma."

A marca foi lançada em 2014. "Desenvolvi a embalagem, que é feita com papel reciclado, para ter coerência com a proposta vegana. Também faço questão de saber a procedência dos ingredientes, compro de pequenos fornecedores do sul que produzem soja não transgênica. E os demais ingredientes são orgânicos."

A Flor de Sal já está presente em alguns mercados e hotéis. "Acredito que a nossa marca é a única da linha de hambúrguer que tem o selo vegano da SVB. Foi uma conquista muito importante e levou um ano para ser obtida", salienta.

Na região de Campinas, a marca que está ganhando mercado é a Vegabom, lançada em 2013. "Começamos com dois produtos para ver a aceitação: o churrasco natural 100% vegano e churrasco natural acebolado 100% vegano", conta a gerente administrativa, Dorothéia Araújo.

De acordo com ela, as fórmulas e temperos dos oito produtos comercializados pela Vegabom se baseiam em mais de 30 anos de experiência de vegetarianismo de Valnei dos Santos Souza, fundador da marca. O negócio emprega 12 pessoas e cresce ano a ano.

Mercado crescente

O catarinense Alex Fernandes afirma que a cada dia mais pessoas veem o veganismo como sendo o melhor caminho para a saúde das pessoas, do planeta e claro, para os animais. "A maior parte dos clientes pertence às gerações Y e Z, mas eles acabam trazendo outros membros da família."

O empresário afirma que um dos grandes indicativos da pujança do mercado vegano é o grande número de eventos e feiras sobre o assunto que têm ocorrido pelo País.

"Nessas ocasiões, a resposta do público é muito positiva. Esse mercado ainda é carente de produtos. Por esse motivo, eventos desse tipo lotam. É assim na Europa, América, Austrália e Oriente. Vivemos um fenômeno cultural de transformação que é irreversível", avalia. Diretora executiva da Carob House, Eloisa Helena Orlandi diz que a marca, lançada em 2003, produz chocolates e barras de cereais à base de alfarroba, sem a adição de leite e de outros insumos de origem animal. "Desde o início, temos o Selo Kosher, atestando que nossos produtos são adequados ou permitidos pelas leis alimentares do judaísmo", conta.

Com o crescimento do veganismo no País, a Carob House também pleiteou e obteve o Selo Vegano, concedido pela Sociedade Vegetariana Brasileira. A executiva diz que a ideia do negócio surgiu quando ela e o marido, Carmine Giunti, hoje diretor industrial da marca, moravam no Canadá. "Voltamos ao Brasil em 1998 e iniciamos as pesquisas para o desenvolvimento dos produtos."

Perto de completar 19 anos de mercado, Eloisa considera que hoje o segmento vegano tem um público bem definido. "São pessoas que levantam a bandeira da proteção ecológica. Acredito que esse crescimento decorre da maior organização dessa filosofia de vida" A executiva também realiza trabalho de conscientização entre seus fornecedores para impedir a ocorrência de trabalho escravo e que as matérias-primas sejam testadas em animais. "Nossa empresa é ecologicamente correta em toda a cadeia produtiva."

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