No último domingo, as mulheres feministas de Bauru viram-se estigmatizadas em missiva escrita por um leitor desta Tribuna. Dada a realidade social brasileira, de constante desrespeito e violência às mulheres, não se pode dizer que nesse episódio lamentável possa haver qualquer surpresa: o movimento feminista foi acusado de pregar "teorias excêntricas" e as feministas tratadas por "feminazi". Em particular, houve a acusação de "incoerência" por parte daquelas que defendem a cotização de gênero em cargos parlamentares e, ao mesmo tempo, são contra a equivalência de anos de trabalho entre homens e mulheres quando o assunto é aposentadoria.
Ora, nada há de incoerente na defesa de que grupos minoritários (em poder político, não em quantidade de pessoas) historicamente excluídos das posições de poder devam ser apoiados por políticas afirmativas até que as condições concretas de poder se igualem. Até hoje, a mulher brasileira tem conhecido a existência típica de uma casta subalterna, cercada de ideias de inferioridade: a ideia de que as mulheres não deveriam trabalhar "fora" e sim depender financeiramente de homens é vivenciada tanto pelo grupo de trabalho doméstico, que muitas vezes experimenta a violência dos homens a qualquer sinal de independência, quanto pelo grupo de trabalhadoras externas que, no mínimo, sofre com a dupla jornada e a desigualdade de salários.
Já a ideia de que as mulheres têm certas características transcendentais, como a "feminilidade", nos vincula somente aos papéis de esposas e mães, e está bem conectada à noção de posse masculina, que se manifesta numa cultura em que uma mulher é violentada a cada quatro minutos e estuprada a cada doze.
Assim, tal posição condiz com a história de exclusão desse grupo: se, por um lado, as cotas de gênero ajudam as mulheres a vencer as dificuldades dessa realidade injusta e o preconceito, por outro, tornar equivalentes as aposentadorias só iria dificultar ainda mais a emancipação das mulheres. Não há nenhum motivo para dar suporte a qualquer retirada de direitos. Ao contrário do que foi dito aqui na semana passada, a questão de gênero precisa, sim, de politização, para que as pessoas possam conhecer de fato quem são os atores políticos desse País e o que realmente representam.