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O fiado 'vive', mas só na fidelidade!

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 4 min

Douglas Reis
Marcela da Silva Arão é outra que só abre uma exceção e "pendura" para os clientes antigos

" Fiado? Só amanhã!". Quem nunca viu uma plaquinha dessas em algum comércio (confira mais frases ao lado)? Porém, o fato é que o popular fiado ainda sobrevive hoje, mesmo no atual cenário econômico! Fichário, caderneta e, até mesmo, caixa preta auxiliam os comerciantes a controlar o pagamento na base da confiança. Quem ainda o mantém, contudo, restringe aos consumidores "de anos", já que a crise econômica leva à inadimplência e ninguém quer sair no prejuízo.

Há 23 anos, Cláudio Caldato Louzano possui uma mercearia situada na quadra 1 da rua Lázaro Fernandes de Lima, no Parque Bauru. Desde então, nunca deixou de vender fiado aos consumidores mais antigos. "Criei amizade com meus clientes", justifica. 

Aos novos, Louzano não dá brecha, porém, há casos em que acaba cedendo. "Às vezes, vem gente que não tem dinheiro para comprar arroz e feijão. Não posso deixar a pessoa passar fome e anoto a conta em minha caderneta", acrescenta.

Em outra mercearia, na quadra 1 da rua Engenheiro Oersted Barbosa Silva, no Jardim Progresso, os proprietários Marcela da Silva Arão e Claudinei Frez não abrem exceção. O estabelecimento existe desde 1991, mas era comandado pelo pai de Marcela, que decidiu se aposentar.

Há cinco anos, ela e o marido assumiram o negócio e a longa caderneta de adeptos ao fiado. Com o tempo, o casal reduziu essa quantidade e a organizou em um fichário. Atualmente, só trabalha com a modalidade de pagamento com quem é cliente "de anos". "Neste caso, compensa vender fiado, porque você fideliza o consumidor", defende a mulher.

Já o dono de um supermercado na quadra 7 da rua Zephilo Grizoni, no Jardim Petrópolis, Rafael Pessuto Moreira, fica arrepiado só de ouvir a palavra. Tanto que a lista de adeptos ao fiado está organizada em uma caixa preta. Por outro lado, Moreira também abre exceção aos consumidores antigos. "São clientes de mais de 30 anos e nós sabemos que não são inadimplentes. Mesmo assim, não compensa, porque você não tem o retorno imediato do dinheiro", argumenta.

DE PAI PARA FILHO

Fábio Brandini Quinteiro possui três farmácias em diferentes regiões da cidade, porém, só aceita fiado em uma delas - na rua Marcelo Pinto de Oliveira, no Ouro Verde -, que existe há 25 anos e tem clientes antigos. Inclusive, a modalidade de pagamento passa de pai para filho, já que o comerciante confia em algumas famílias.

Houve uma situação em que uma idosa, que comprava fiado no estabelecimento, chegou com todo o dinheiro de sua aposentadoria e pediu para que Quinteiro retirasse o que ela devia. "É uma relação dupla de confiança", observa.

Nas outras duas lojas, o comerciante não aceita fiado, mas utiliza o cartão fidelidade vinculado a uma administradora de cartão de crédito, no qual os clientes que têm o CPF liberado ganham um crédito de R$ 200,00, liberado sempre que a dívida é paga. Em outras palavras: fiado, para ele, só no Dia de São Nunca...

No Centro

Vender fiado não é uma prerrogativa só dos bairros. Em restaurante situado entre as ruas Gerson França e Cussy Júnior, no Centroda cidade, os proprietários Joana e Airton Carraro abrem exceção só para clientes antigos. Há 16 anos no local, o casal criou laços com alguns consumidores, que optam por fazer o pagamento semanal, quinzenal ou mensal. "Não tem como não dar um voto de confiança", acrescenta Joana.

Driblando a crise

Em reportagem publicada pelo Estadão no último dia 19, uma pesquisa aponta que, no ano passado inteiro, 14,1 milhões de famílias brasileiras usaram a caderneta, ao menos, uma vez. Costumeiramente, as compras são feitas em mercadinhos, açougues e padarias de bairros. Em 2015, 13,5 milhões de famílias aderiram ao fiado, pelo menos, uma vez. Segundo especialistas, a maior adesão se dá, principalmente, pelo aumento do desemprego: o objetivo é não deixar de consumir os itens básicos, como alimentos e produtos de higiene, e driblar o aperto no orçamento doméstico.

Você sabia?

A palavra "fiado" tem seu berço no verbo latino "fidare", que significa confiar. Quer dizer, nesta operação comercial, existe uma relação de confiança entre comprador e vendedor. Uma curiosidade da expressão em inglês: "fiado", no idioma de Shakespeare, é "on the cuff" ou "on the arm". Sua origem está ligada ao fato de que, antigamente, os garçons anotavam, no punho ("cuff") das mangas de suas camisas, o valor das contas dos clientes e, quando não havia mais espaço, escreviam no braço ("on the arm").

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