O sádico e excitante momento do mando, disfarçado de "princípio de autoridade", vem fundamentando e fortalecendo as estruturas sociais do Brasil, desde a época quando senhores e escravos pisavam firmes nesse chão. Todos, do analfabeto ao doutor, tendem a desejarem o poder da autoridade como arma de defesa - o que é natural, pois a educação escolar que recebemos, desde as antigas, ainda não nos permite uma funcional libertação dessas velhas raízes que nos prendem ao passado. Como disse Paulo Freire: - Quando a educação não é libertadora, é objetivo do oprimido, um dia, também oprimir.
A cultura da alienação, onde estamos todos nós inseridos, nos atribui a fantasiosa autoridade sobre a maioria dos acontecimentos alheios. Tornamo-nos juízes e condenadores; opinamos e decidimos assuntos que não nos competem; nos autocoroamos de soberania, assim como Napoleão (1769-1821) um dia o fez para se proteger de seus medos e, nas palavras de Maquiavel (1469-1527) em O príncipe, 'estar desarmado nos obriga a ser submissos'. Por isso nos armamos, nos odiamos e defendemos, com unhas e dentes, nossos individuais interesses que pensamos, com muita fé e afinco, valer para todos os demais.
"As ideias das classes dominantes são as ideias dominantes de cada época", disse Marx, no século XIX, ainda fazendo muito sentido no atual momento em que vivemos. Não importa o período histórico, a narrativa, os personagens retratados ou o princípio ideológico vigente, o discurso de mando sempre estará fincado na velha e brasileira indagação do "- você sabe com quem está falando?"; que é de comum acordo entre sadistas e masoquistas, senhores e escravos, doutores e analfabetos, indivíduos de culturas diferentes ou iguais. A ordem do momento é oprimir, perseguir e calar; nem que seja o próprio cachorro, que apanha do dono ao latir de fome.
Estamos em constante processo de desumanização. O poder do consumo e o "fetichismo da mercadoria" nos manipulam e nos esvaziam por completo. Estes atraentes mecanismos nos fazem como coisas ou bestas, permitindo com que objetivemos as nossas vidas do modo mais grosseiro possível, para que, sem muito trabalho, possamos nos autodestruir o quanto antes. Se Deus é brasileiro, eu não sei. Mas, que ele se chama Nelson Rodrigues (1912-1980) e que, lá do paraíso, faz das nossas vidas outros de seus sistemáticos dramas, disso eu tenho certeza.
Manda quem pode, obedece quem irá trabalhar até morrer.