Tribuna do Leitor

Sou privilegiado. Infelizmente

Mikael Corrêa, publicitário
| Tempo de leitura: 2 min

Sou um cara de gostos simples. Meu maior prazer é andar, correr ou pedalar pela cidade, com a roupa que eu quiser, do jeito que eu sou, na hora que eu puder. Poder sentir o vento no rosto, ver como a cidade se manifesta e entender o que é um espaço público na prática é a mais pura sensação de liberdade, e como isso é prazeroso. Sou privilegiado por poder fazer isso. Infelizmente.

Explico. Me sinto infeliz não porque eu posso fazer essas coisas tão simples, mas porque me dou conta que outros não podem. Outros não, outras. Sim, caro amigo. Talvez você não tenha se dado conta, mas você também conhece e convive com pessoas que não podem usufruir desta sensação, não da mesma maneira que você, pelo simples fato de ter nascido com um órgão genital diferente do seu.

E você, assim como eu, não sabe e talvez nunca saiba o que é sair às ruas e sentir na pele o medo dos passos desconhecidos que o perseguem, dos motores dos carros que se aproximam vagarosamente e te fazem atravessar a rua, procurar abrigo, e querer fugir o mais rápido possível (sem ter cometido crime algum).

Não sabe do incômodo barulhento e ofensivo, mal disfarçado de elogios, que vem dos assobios e de frases tão mal elaboradas quanto dolorosas. Não sabe do gosto amargo que logo vem à boca, causando ânsia, quando se percebe os olhares indiscretos daqueles que viram o pescoço em sua direção assim que você passa.

Não, nós não sabemos, eu não sei. Mas é nessas ocasiões que identifico minha condição de privilégio, e sei o quanto isso não me traz felicidade alguma. Afinal, como ser plenamente feliz ao saber que sua condição de vantagem pressupõe a desvantagem de alguém? Qual a solução para este problema? Parece que a resposta não é tão fácil.

Envolve questões complexas de uma sociedade desenvolvida sob uma cultura machista e sexista. Contudo, meu desejo, como sempre, é bem simples: a garantia do básico direito de ir e vir, e que ele seja tão natural quanto deveria, para todos e para todas. Querido amigo, talvez você não saiba, mas você pode ajudar, e muito:

Basta não agir como o babaca do assovio, como o perseguidor invasivo e como o observador desprezível. Não seja esse cara, por uma questão de respeito e humanidade.

Simples assim.

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