O caso de assédio sexual protagonizado pelo ator José Mayer serve para tirar da invisibilidade milhares de mulheres que sofrem abusos, da mesma ordem, em seus locais de trabalho. A decisão da figurinista Susllem Tonani de publicar um texto delatando o seu drama - foram oito meses de pressões psicológicas, morais e físicas - oferecerá amparo a outras vítimas até então emudecidas. A apresentadora Sandra Annenberg já fala do seu sofrimento em início de carreira. O famoso "teste do sofá" não é peça de ficção.
Todo esse bolo-caso trouxe para o centro do debate situações que ocorrem em empresas e instituições públicas, mas que ficam em geral restritas à vítima. Pouco depois da manifestação das funcionárias, a Globo repercutiu em telejornais da emissora uma nota em que declarou a suspensão do ator por tempo indeterminado. Mayer, que na semana passada chegou a sugerir que Susllem estava confundindo as ações dele com as do personagem misógino Tião Bezerra, interpretado por ele, voltou atrás e pediu desculpas. Em carta, o ator, apesar de ser acusado de, nas palavras da figurinista, ter colocado "a mão na minha buceta e ainda ter dito que era seu desejo antigo", disse que "não teve a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar".
A Globo não esperava que Susllem fosse tomada de uma coragem rara entre as mulheres. Não só por denunciar um homem mais poderoso que ela, protegido por um aparato midiático, mas pela crueza das suas palavras no texto. No Brasil se emprega a palavra "caralho" a três por quatro, mas "buceta" é algo quase chocante. Alguém observou: "Poderia ter optado por vagina..." A verdade, muitas vezes, precisa ser contada sem rodeios, na linguagem que ela se apresenta, "sua bundinha", "seu peitinho..." Que mulher nunca ouviu isso na vida, na rua, no ônibus, ou até no confessionário de uma igreja (há denúncias). Boni, ex-diretor da Globo, disse que a emissora fez "sensacionalismo". Na verdade, acho que estava protegendo seus interesses fora do país. As novelas são exportadas e o público não costuma perdoar, do lado de lá. Fazer de um limão uma limonada foi a melhor estratégia. Os casos de assédio são tantos que a emissora criou até um departamento para cuidar só disso.
A doença é social. Há mesmo que denunciar. Dar nome aos bois, venha de onde vier. No meio artístico existem muitas histórias. O grande Charlie Chaplin era o mais famoso dos pedófilos. Deflorava garotinhas e depois casava-se com elas, por algum tempo, para fugir dos rigores da lei. Aos 54 anos passou a mão na infante Oona O`Neil, de 17 anos, e fez dela sua esposa legítima com quem teve sete filhos. E vejam bem, Oona não era uma periguete qualquer de Hollywood, em busca de um velho protetor. Era filha do grande dramaturgo Eugene O`Neil. Roman Polanski (O Bebê de Rosemaire), estuprou uma menina de 13 anos na casa de Jack Nicholson, numa sessão de fotos. Foi em 1977. Fugiu dos Estados Unidos. Depois de 40 anos, aos 83 de idade, será preso se pisar no solo de um país que mantenha tratado de extradição com os EUA. Hoje, a juventude está mais liberal, faz amor como se fosse praticar algum esporte. Acha "norrr-mal" ir para a cama e soltar a libido (ou soltar a franga) para coroar a balada do fim de semana. Há cerca de cinco anos houve uma febre de leilões de virgindade. A desculpa variava: "custear os estudos", "doença do pai", até "construção de casas populares". Antes um bem jurídico, a virgindade deu lugar a outras necessidades. "Por que perder a virgindade para algum cara no banco de trás do caro quando você pode pagar pela sua educação? ".
A exposição do caso Mayer é importante para melhorar a percepção do que é e não é assédio. E demostrar que as mulheres não estão dispostas a tolerar a submissão. O governo Federal tem uma Central de Atendimento à Mulher (número 180), que registra aumentos constantes nas ligações. A função é orientar e encaminhar mulheres vítimas de assédio.
Os dados disponíveis de 2016 chegam a mais de 1 milhão de chamadas. Prova de que a violência contra a mulher está mais visível, mais gritante, como atesta o desfecho da história da figurinista da Globo. Tinha razão, Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher, torna-se mulher". A luta pela igualdade de gênero é constante e até impossível em alguns casos. Envolve questões econômicas, geográficas, raciais. Mas, há que lutar.