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| Rafaela Silva: "Quero mostrar que, independente da nossa cor, de onde viemos, de como nos vestimos, temos um sonho e batalhamos." |
Como você acha que as mulheres vêm mudando o mundo e como elas podem continuar fazendo isso?
Rafaela Silva - Eu acho que, pelo menos nessa última Olimpíada, as pessoas estão com uma visão melhor das mulheres. A gente está conseguindo mais respeito. Antigamente, tudo o que fazíamos era errado, éramos criticadas, e eu acho que está mudando bastante. Espero que melhore cada vez mais.
Como você começou a praticar judô?
Rafaela Silva - Eu comecei com 5 anos na Associação dos Moradores. Não tinha quimono, treinava com a minha roupa. Era mais um treino de judô para gastar o tempo das crianças da comunidade que ficavam soltas na rua. Com oito anos, fui para o Instituto Reação, um projeto social do qual faço parte até hoje. E foi lá que eu conheci o meu treinador, Geraldo Bernardes, que era técnico da seleção. Quando acabou o primeiro treino, ele chamou os meus pais e falou para eles continuarem trazendo as filhas para o judô. Disse que tínhamos talento e que um dia nos colocaria na seleção brasileira. Só que na época eu tinha oito anos e não sabia nem o que era Seleção Brasileira de Judô. Continuei treinando, brincando, ia mais para a academia por causa dos meus amigos, não por conta do judô, porque nem gostava do esporte em si. Conforme eu fui entrando nas competições, fui pegando gosto. Só comecei a levar o esporte a sério com 15, 16 anos.
O que você aprendeu na Cidade de Deus que carrega para a vida toda?
Rafaela Silva - Algumas crianças na turma de judô eram de colégios particulares e tinham um pouco mais de dinheiro. E quando elas achavam um treino mais duro, eram as primeiras a desistir. Só eu e a minha irmã ficávamos fazendo o treino todo, porque nunca tivemos nada fácil. Então a gente ia até o limite, queria dar o máximo, fazer as coisas da melhor maneira. Eu brincava bastante na rua, então tinha uma coordenação que o professor não via nas outras crianças. Subia em árvore e pulava muro às vezes para pegar pipa
O judô é uma modalidade que já trouxe muitas medalhas para o Brasil, tem um número até considerável de praticantes e mesmo assim não recebe tanta atenção da mídia esportiva.
Rafaela Silva - É o esporte que mais traz medalhas para o Brasil em Olimpíadas e o nosso foco na mídia é apenas no ano olímpico. Fora isso, somos esquecidos. Mas agora até que estamos conseguindo mais visibilidade, algumas competições que a gente participa já estão tendo cobertura da TV, então as pessoas conseguem acompanhar. E é bem difícil você fazer o esporte, incentivar o seu filho a fazer algo que você não sabe nem o que é, como são as regras. Precisamos de um pouco mais de visibilidade, não só no ano olímpico, né? Eu acho merecemos isso porque a gente faz o nosso trabalho, como todos podem ver.
O que você acha que falta para acelerar a popularização do esporte?
Rafaela Silva - Ah, eu acho bem complicado porque o Brasil é o país do vôlei e do futebol, então é bem difícil reverter esse caso. Mas para quem não tinha nada, conseguir um pouco mais de espaço agora é muito bom. Espero que mude não só para o judô, mas para outras modalidades também.
Você passou do anonimato para campeã mundial em 2013, depois de judoca reconhecida para uma heroína nacional nos Jogos Olímpicos do Rio. Como é ser reconhecida na rua?
Rafaela Silva - Para mim está sendo bem bacana andar na rua e as pessoas me pedirem uma foto, darem um abraço ou falarem que o filho iniciou no esporte depois que viu a minha conquista na Olimpíada do Rio. Está sendo muito legal esse reconhecimento. Eu já estive do outro lado também, porque queria chegar perto do meu ídolo, tirar foto e nunca soube que ia ter essa oportunidade na vida. Graças a Deus eu tive, porque minha ídola era a Mayra Aguiar e hoje faço parte da seleção brasileira ao lado dela.
Se fosse para dizer que a Rafaela tem uma missão no mundo, qual seria?
Rafaela Silva - A missão que eu tenho é dar visibilidade para quem é da comunidade. Porque as pessoas olham para a gente com outros olhos. Andamos na rua e elas levantam o vidro do carro, só porque estamos de bermuda ou de chinelo, porque somos negros. Entramos no shopping e o segurança já vem atrás. Quero mostrar que, independente da nossa cor, de onde viemos, de como nos vestimos, temos um sonho e batalhamos.
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