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Serve pra quê?

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Há coisas que não servem para nada e outras que para tudo servem. Dinheiro, por exemplo, serve para tudo. Para viajar, morar, comprar (coisas e pessoas) e até para importante a gente ser. Ainda que Nelson Rodrigues tenha dito que dinheiro compra tudo, inclusive "amor verdadeiro", a verdade é que o dinheiro, sendo fundamental, essencial não é.

Fundamental é diferente de essencial. Alguma coisa é fundamental quando "serve para". Ou seja, serve para outra conseguir. Uma escada, por exemplo, é fundamental para que eu possa obter algo que esteja além do meu alcance. O fundamental é ferramenta. O essencial não "serve para", nunca é ferramenta. É fim em si mesmo.

A poesia é essencial porque não serve para que dela possamos obter outra coisa. Ela nos dá o que é: musicalidade, imagens, sinestesia... A pintura, a dança, a escultura, igualmente. A arte, enfim, é essencial justamente por não "servir para". Ela vale por si mesma. Por isso, o semioticista Charles W Morris (1901/1979) chamou o signo das artes de "signo-de": aquele que é sinal de si mesmo, pois não "serve para".

Decidir o que deva ser essencial ou fundamental em nossas vidas é coisa de cada um. É aquela velha faca na garganta perguntando-nos o caminho a tomar. Ser ou não ser continua sendo a questão. Teremos que decidir o que nos vai "servir para" e o que "para nada nos vai servir". Para descomplicar, um exemplo: se estudo matemática, não porque dela goste, mas apenas para ser aprovado numa prova, a matemática nada mais é para mim do que um meio, uma ferramenta. Ela é um "serve para". É, portanto, fundamental, mas essencial ela não é. Se, ao contrário, entrego-me aos números e às fórmulas por puro prazer, por vocação realizadora, então tudo muda. A matemática agora me é essencial, é um fim em si mesmo. Os gregos tinham uma palavra que bem traduzia as coisas essenciais: "endaimonia". As coisas endaimônicas nos oferecem o prazer imediato. As coisas fundamentais isso não fazem, adiam tudo para um tempo futuro. São ferramentas para conseguir o depois.

É aqui que mora o perigo. Estamos atolados numa cultura pragmática que valoriza enormemente a produção e o consumo. Exatamente por isso, as sociedades capitalistas têm grande dificuldade em valorizar o fazer artístico e tudo o que não seja ferramenta de produção. Se o que fazemos não serve para produzir, ganhar dinheiro, comprar coisas para nos exibir e do outro nos diferenciar, então nada vale, pura perda de tempo. Daí o trabalhar muito hoje, o estressar-se hoje, para ser feliz (quem sabe?) amanhã. Seduzidos, nossos olhos só conseguem enxergar ferramentas e produção. Por só pensarmos na chegada, acabamos desperdiçando o caminho e tudo o que nele nos poderia ser essencial e realizador. Quando isso acontece, a desgraça acontece: a vida vira ferramenta. Vira escada para nos fazer felizes num incerto amanhã. Vida jogada fora.

Não foi o que fez a cigarra. Sendo artista, cantou o verão todo, enquanto as formigas trabalhavam. Depois, no rigoroso inverno, bateu à porta das formiguinhas recolhidas no calor do formigueiro bem provido. A formiga que a atendeu, empinou o nariz e disparou: "Já sei, você quer comida e acolhimento, mas no verão você nada fez senão cantar. Agora dance!" Surpreendente foi a resposta da cigarra: "Nada disso, amiga formiguinha, apenas vim me despedir. Tanto cantei no verão que fui contratada para cantar no Olimpya, em Paris. Vim me despedir. Querem alguma coisa lá da França?" Desapontada, a formiguinha desabafou: "Quero sim. Encontrando lá um tal de La Fontaine, mande-o para a 'fruta que o serviu'." Fábula por fábula, gosto mais dessa frutífera versão.

Cada vez mais me convenço de que aquilo que "não serve para" é tão ou mais importante do que aquilo que para muito serve. Ainda que remando contra a perversa correnteza, ser artista, ser cigarra, ser apaixonado pelo que se faz é pegar a vida pelo pescoço e gozá-la por inteiro. Até menos: uma cerveja entre amigos, a bola rolando com o filho, pode ser o neto também, o chinelo, a bermuda, um livro, um violão, a rede preguiçosa... São coisas que não servem para nada. Mas já que da vida nada se leva, melhor é levar a vida assim, como se não houvesse amanhã. Lembrei-me de Renato Russo.

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras

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