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Vamos viver assim?

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Conte alguns anos para frente. Veja-se numa noite futura. A onda são bares especializados em receber gente sozinha. Mesas para um. Cada qual que chega se acomoda de frente para o nada. Mas, se você passar na calçada, ouvirá um turbilhão de conversa. Muitas vozes. Cada frequentador solo em prosa animada com seus amigos virtuais. Para isso, usa-se óculos de realidade aumentada. Os mais antigos vão de iPhone mesmo.

O negócio é que cada um, sozinho, está cheio de gente online em volta. Como era antes, mas mais. É a vitória do virtual. O real aumentado reduziu contatos diretos (credo!) e ampliou a corrente de gente distante. Beijar, então, tornou-se politicamente incorreto. Mas estão desenvolvendo uma tecnologia que permite, com chips e sensores, sentir o beijo de pessoa ao longe. Tudo muito seguro e desapegado.

E as crianças vibram com seus amiguinhos que nunca verão pessoalmente. São todos, pequenos e adultos, ótimos em entusiasmo individual, mas derrapam em atividades de grupo. A não ser em feiras específicas como aquelas para se conhecer as tevês finas do passado.

O lance é ter incontáveis experiências ao mesmo tempo, mas sem esse papo de profundidade. Uma maravilha atrás da outra no mundo moderníssimo. Só não combinaram com o cérebro, que continua do mesmo tamanho. Resultado: consultórios (virtuais) lotados de gente pirada. Gente com aversão a gente de carne, osso e sonhos.

O pragmatismo e a praticidade assassinaram a expectativa e a conquista. Tudo ficou absurdamente funcional e perfeitinho, e isso virou uma droga. Porque o ser, para ser humano, deve ter medo, incerteza e fragilidade. Quando tudo é certo e ligeiro pinta um tremendo vazio. No tempo da demora havia mais sabor na chegada.

Resta torcer pelo sucesso daquelas colônias em planetas habitáveis, cada qual, com seu modelo de vida dividido por década. Muitos estão escolhendo ir para os anos 80. Era quando as maravilhas modernas não separavam ninguém e as noites de festa estavam cheias de vida compartilhada. Lembra? Não? Basta contar alguns anos para trás.

O autor é editor executivo do JC

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