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Carioca, será que Darwin estava errado?

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Biologia. A junção dos termos gregos 'bios', que significa vida, e 'logos', estudo. Logo, trata-se do estudo da vida.

Biologia. O ofício que Gérson do Nascimento exercia com tamanha paixão no Zoológico de Bauru. Exercia. O verbo no presente se transformou em pretérito imperfeito por conta do disparo de uma arma, com estampido curto, colada no peito do Carioca, como o biólogo era conhecido entre os amigos.

Biologia. A ciência que estuda a vida. Uma vida que precisa, a cada novo eco dessas tragédias inexplicáveis, de estudos mais e mais complexos. Uma vida que, por mais que se estude incessantemente, sempre caminhará para um horizonte incompreensível. O problema é, nos últimos tempos, caminhamos a passos largos rumo a tal limbo da incompreensão.

Afinal, como compreender a morte de um homem de 51 anos após uma discussão torpe em um bar? Como compreender que um desentendimento (por mais grave que seja) evolua para tal estágio primitivo e selvagem de, simplesmente, pressionar o peito do outro com uma arma e puxar o gatilho? Como, minimamente, compreender - ou sequer aceitar - que "homem que é homem resolve as coisas assim" seja justificativa para apagar a chama da vida de alguém? Não. Não dá para compreender. E muito menos aceitar...

Sem compreensão e aceitação, caímos de novo em um grande balaio de mais e mais questões. Perguntas que a biologia, a ciência mesmo, parece não ser capaz de explicar: em que ponto a humanidade errou para que a vida se tornasse algo tão banalizado? Será que, diante de uma era de tanta intolerância e desprezo com o outro, não estamos caminhando na contramão da evolução teorizada pelo britânico Charles Darwin? Aliás, será que ele não estava errado em seus conceitos e nós estaríamos, na verdade, regredindo?

Darwin mudou os paradigmas da biologia com a sua teoria da evolução. O naturalista certamente percorreu a vida de Gérson pelos sem-número de livros estudados durante toda a sua formação como biólogo. Neste final de semana, contudo, outro ensinamento de Darwin pôde ser aplicado ao destino de Carioca. E em um dito que vai além da ciência.

"O homem que tem coragem de desperdiçar uma hora do seu tempo não descobriu o valor da vida". A frase de Darwin encontra pontos tangentes à tragédia que findou os rumos de Gérson, mas também cabe a todos nós. Primeiro porque fala da fugacidade da vida e de como é importante aproveitá-la. De como é fundamental não desperdiçar uma hora sequer. De como é possível estarmos tranquilamente conversando com amigos e, no milésimo seguinte, estarmos sangrando no solo. E segundo porque, de uma maneira mesmo que genérica, a frase trata sobre o valor da vida. E todos, sem exceção, devemos refletir sobre qual valor que a vida tem, hoje, para nós, seres humanos?

A vida de Gérson valia muito. Apesar de ter sido findada por um nada, por uma estupidez, por uma insensatez, ela valia muito. Valia muito para ele e para as incontáveis pessoas que ficarão, daqui pra frente, com os sentimentos de incredulidade, incompreensão, tristeza e, claro, saudade. Muita saudade.

Em cortejo regado a palmas e buzinas, os amigos seguiram o corpo do biólogo. Ali, somente ali, daquele gesto singelo de um último adeus, posso responder a uma única pergunta dentre tantas que permeiam este artigo: Darwin não estava de todo errado, Carioca. Há uma parte da humanidade que evoluiu. Por amor. E você certamente contribuiu muito para essa evolução.

O autor é editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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