Lisboa - Voltar a Portugal é sempre bom, e gostoso. Principalmente à Lisboa, que evoca tantas tradições e exala cultura. Não é só porque se come bem, com diz o velho chavão. Todos os países têm a sua orgia gastronômica, inclusive o Brasil. Um dos maiores tesouros é o próprio povo. Sempre pragmático. A gasolina está cara e por isso nunca houve tanta gente a andar (eles detestam o gerúndio) de bicicleta em Lisboa. O dinheiro falta e as pessoas compram conservas em lata, porque é mais barata. Outrora comer conservas era "uma coisa de poupadinhos". Mudam-se os temos. Mudam-se as vontades. Em Lisboa há agora restaurantes só de conservas, como o Can the Can (Lata da Lata), na famosa praça do Comércio. A loja da Conserveira de Lisboa, na Rua dos Bacalheiros, na Baixada, teve a ideia de toda semana promover consertos de música pop em frente, para atrais clientes. O projeto ganhou fama pela divulgação gratuita na mídia. Chama-se "Música com Lata". Genial.
A crise econômica não e tão grave como no Brasil, mas percebe-se que eles estão enrolados com as contas públicas. Ou melhor, estão "entroikados". Como Portugal pertence à União Europeia, o país é monitorado financeiramente pela troika (palavra russa que significa comitê de três) - Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional-FMI. O dinheiro está curto. Muita gente parou de assinar canais de tevê, e vão assistir jogos de futebol no café da esquina. A marginal do Tejo está cheia de gente fazendo exercícios físicos. As academias estão vazias. Voltei ao velho João do Grão, com suas mesinhas na calçada, na Rua dos Correeiros, impulsionado pela memória gustativa. Pedi um bacalhau na punheta - antes que me acusem de pornográfico, explico que o nome vem do uso dos punhos para desfiar o bacalhau.
Tradicional tira-gosto português. Come-se com cacetinho, o pãozinho deles. Retira-se o miolo para dar lugar ao bacalhau com azeite, temperos e grãos-de-bico. Daí o João do Grão. Para completar, uma taça de vinho do Alentejo acompanhado de uns beliscos de queijo Serra da Estrela. Sabia que cafezinho, na terra dos meus avós é "bica". Pedi uma "bica" e o garçom: "Porque não tomas um cafezinho?" Joguei fora o meu dicionário português-português.
De lá, fui com a minha mulher à estação de trem comprar passagem para Cascais. Perguntei à bilheteira quanto tempo demorava a viagem e quantas paradas (paragens, como eles dizem) até o destino. A moça me respondeu: "Vás comprar ou somente perguntar? " Há que se adaptar à lógica portuguesa. No Tromba Rija, onde fomos jantar, na hora da sobremesa minha mulher perguntou como era o sorvete "After Eight". O impávido garçom responde: "É gelado". Nós é que não nos fazemos entender. Lá não se diz sorvete, e sim, gelado. Antes, havíamos provado joaquinzinhos, peixe que aqui chamamos de cavalinha, assados na brasa.
No segundo dia a gente já não aguenta mais bacalhau. O sanduíche é a refeição ligeira que nos agrada, aqui o Brasil. Lá, é um pouco diferente. Sanduíche é sandes, uma palavra feminina. Pedi uma francesinha, que, na verdade, é típica do Porto, assim como o nosso bauru. A receita: começa com uma fatia de pão de forma. O dobro do tamanho do nosso. Sobre ela vai uma fatia de presunto. Sobre o presunto, um bife. Ao lado do bife, uma salsicha. Ao lado da salsicha, duas ou três linguicinhas.
Há ainda quem acrescente algumas fatias de salame. Já cansou? Pois tem muito mais. Cobre-se tudo com uma segunda fatia de pão de forma. Sobre ela, uma fatia de queijo. O conjunto todo deve ir ao forno para gratinar. Satisfeito? Pois saiba que essa arquitetura gastronômica deve ser servida com um molho cobrindo tudo. O molho é o segredo da francesinha.
De acordo com o colega Artur Xexéo, ele é feito de um refogado com cebola, alho, louro, azeite, carne de vaca, vinho branco, pimenta, mostarda, vinho do Porto, uísque, gim, cerveja, água, leite e maizena. Bem, esta é a francesinha simples. Em versão mais sofisticada, ela vem cercada de batatas fritas. E em versão mais sofisticada ainda, recebe em cima dois ovos estrelados.
Em 2011, o megasite americano AOL Travel, elegeu os dez melhores sanduíches do mundo. A francesinha foi para o pódio. Infelizmente, esqueceram do nosso bauru, do beirute do Frevinho, em São Paulo e o sanduíche de pernil do bar ao pé do antigo Estadão, na Major Quedinho.
No Rio, o sanduíche de pernil com abacaxi do Cervantes também mereceria distinção. Entretanto, reconheço que a francesinha faz por merecer.
O autor é jornalista e articulista do JC.