Cultura

Um ator múltiplo, uma perda imensa


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TV Globo/Ique Esteves
Nelson Xavier interpreta Chico Xavier no cinema: marcante
Globo/Divulgação
Nelson Xavier em “Pedra sobre Pedra”, novela de 1992

O consagrado ator Nelson Xavier morreu aos 75 na madrugada dessa quarta-feira (10), em Uberlândia (MG), de complicações de um câncer que já durava 14 anos.

Segundo a médica Clarissa Aires de Oliveira, ele planejava se mudar para a cidade, onde fazia um tratamento de medicina integrativa (abordagem que procura melhorar, com técnicas variadas, a saúde geral, em lugar de combater a doença). Ainda segundo ela, nos últimos dois meses ele melhorou, deixando a cadeira de rodas. "Morreu sem dor, sem usar morfina."

Nascido em São Paulo em 1941, Nelson Agostini Xavier atuou por quase 60 anos no teatro, na TV e no cinema. Formado na Escola de Arte Dramática da USP em 1957, ele iniciou a carreira excursionando com o Teatro de Arena em uma remontagem de "Eles Não Usam Black-Tie".

A peça de Gianfrancesco Guarnieri fora tema, em 1958, de uma de suas críticas para a revista "Visão", onde começara como revisor, emprego conseguido por meio do futuro cineasta Eduardo Coutinho - com quem viria a trabalhar em "O ABC do Amor" (1967).

No final da década de 1960, destacou-se como ator em "Dois Perdidos Numa Noite Suja"e "Navalha na Carne" - ambos textos de Plínio Marcos, sob direção de Fauzi Arap.

Sua primeira peça como diretor foi "Julgamento em Novo Sol" (ou "Mutirão em Novo Sol", que fazia parte das atividades do Movimento de Cultura Popular, no Recife, ao qual se incorporou em 1962.

Ainda no Recife, criou um seminário de dramaturgia, inserindo o teatro em cursos de alfabetização, debates comunitários e comícios políticos.

Evolução

O cinema entrou na vida de Xavier após o golpe militar de 1964 e a consequente censura ao teatro político.

Trabalhou com diretores como Domingos de Oliveira, Bruno Barreto e Ruy Guerra, que o dirigiu como o Mário, de "A Queda", papel que lhe rendeu o Urso de Prata no Festival de Berlim de 1978.

Foi também ator de TV, em papéis marcantes, como o de Lampião em "Lampião e Maria Bonita" (1982), na TV Globo.

Em 2010 foi Chico Xavier na cinebiografia homônima do médium, de Daniel Filho, adaptada depois como minissérie, também na Globo. Repetiria o papel em "As Mães de Chico Xavier" (2011), de Glauber Filho e Halder Gomes.

Teve seu último papel nas telas como um pistoleiro que planeja voltar ao crime em "Comeback", de Erico Rassi, que estreia no dia 25, e pelo qual ganhou como melhor ator no Festival do Rio em 2016.

Nelson Xavier deixa a mulher, a atriz Via Negromonte, e quatro filhos. Seu corpo será cremado hoje, quinta-feira, no Rio de Janeiro.

Artistas lamentam

A morte do ator e diretor Nelson Xavier foi lamentada por artistas e amigos nas redes sociais, entre eles, Juliana Paes e Lúcio Mauro Filho.

"Meu querido Nelson!!!!!!!! Boa viagem! Foi uma honra e um grande prazer dividir cena com vc! Vá com Deus, meu amigo!!!! Saudade fica conosco", disse Juliana Paes no Twitter. A atriz contracenou com Xavier em "Despedida" - filme no qual o ator ganhou o prêmio de melhor ator no Festival do Rio.

"O mundo lhe perde mas fica com tudo que você deixou de maravilhoso para todos nós!", afirmou a atriz Zezé Mota. Já o ator Lúcio Mauro Filho declarou que Xavier era uma inspiração. "Partiu de bem com a vida e a morte. Teve uma carreira que de tão linda, fez o ateu convicto descobrir a espiritualidade através de um de seus personagens, outro Xavier, o Chico", escreveu.

Autobiografia e vídeo

Nelson Xavier deixou uma autobiografia quase completa, segundo a médica Clarissa Aires de Oliveira. "Ele vinha escrevendo a história dele. Faltava pouco para concluir, mas a Via [Negromonte, viúva do ator] me disse que vai editar o material e que pretende criar um memorial para ele". Segundo a médica, quando Xavier mencionava a morte, dizia, pensando em sua mulher: "Tenho um grande amor. E esse amor transcende a morte".

Em um vídeo feito há alguns dias, Xavier conta que o tratamento quimioterápico já não fazia mais efeito. E que o médico que lhe acompanhava havia anos sugeriu que ele e e a mulher fossem passear na Grécia. "O tratamento dele me manteve vivo".

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