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Entrevista da Semana: Shozo Nakamine

Aline Mendes
| Tempo de leitura: 8 min

Malavolta Jr.
No JC, exibindo foto antiga de arquivo familiar onde estão...
Douglas Reis
Na festa Undokai deste ano: Shozo sempre participativo
Arquivo pessoal
... Shozo, Shizuio, Shozaburo (pai), Tatsuhiko, Keiko, Massamiti, Mitsuko, Fukushi (bebê) e Sumyo (mãe)

A princípio, um pouco tímido como quase todo japonês. Depois, a conversa com Shozo Nakamine vai longe. Ainda mais se for para falar da família, da Igreja Tenrikyo, das viagens de volta ao Japão, dos seus 300 vasos de plantas, do grupo de Taiko que coordena e do Clube Cultural Nipo-brasileiro, onde é diretor cultural e, desde o início de 2017, presidente.

Assunto não falta, e vai fluindo com calma. "Penso em japonês e depois traduzo para o português, por isso, demoro para falar". Que nada, seu Shozo, o tempo passou rapidinho.

"Minha esposa Leiko fala que preciso ler livros em português porque tenho muito sotaque e misturo as línguas. Mas só leio em japonês... As pessoas me entendem, então, está bom!

Aos 69 anos, a maior parte deles vividos em Bauru, o entrevistado tem vitalidade de sobra para a agenda cheia e boas histórias para contar.

JC - Com que motivação sua família veio para o Brasil?

Shozo - Saímos do Japão de navio em 1957. Nossa casa lá era chique, mas meu pai quis ser missionário da Igreja Tenrikyo e também trabalhar no Brasil. Para imigrar, o governo exigia três adultos da família para trabalhar, geralmente na agricultura. Viemos para Bauru, na fazenda Colônia Fuji, que tinha café, algodão, amendoim e bicho da seda. Ficamos um ano e fomos para Jundiaí, onde trabalhamos 4 anos em fazenda. Depois, em Piratininga, por 8 anos. Começamos a criar bicho da seda, por uma porcentagem.

JC - E seus estudos?

Shozo - Com 10 anos fui estudar no primário com as crianças de 7, porque não falava nada em português. No começo foi muito difícil. Para as pessoas me entenderem demorou uns 5 anos. No ginásio desenvolvi melhor. Eu queria fazer faculdade, mas tinha que ajudar os pais. Então consegui ajudar a formar meus irmãos mais novos, um em engenharia civil e outro em engenharia eletrônica. Esse continua aqui, os outros voltaram para o Japão.

JC - Trabalhou sempre com agricultura?

Shozo - Ainda jovem comprei um sítio em Tibiriçá, mas revolvi vir pra cidade trabalhar com comércio. Tive uma oficina de funilaria e pintura, deu certo pra mim. Aí casei com a Leiko, que é nissei. Isso já faz 30 anos. Temos quatro filhos: Marcos Yoshihiro (é casado e tem uma empresa de sites em Cianorte, PR), Erica (assistente social) e Edson (formado em administração e direito), que moram comigo, e o caçula, Marcel (casado, trabalha em multinacional de tecnologia em São Carlos). Minha esposa trabalhava em banco e se aposentou faz 8 anos. Eu me aposentei faz uns 10 anos.

Arquivo pessoal
Erica, Shozo, Marcos, Leiko, Marcel e Edson
Com o grupo tradicional Muguenkyo Bauru Wadaiko

JC - Como é sua relação com seu país de origem?

Shozo - A primeira vez que voltei ao Japão foi há 40 anos. Há algum tempo vou todos os anos com a caravana da Igreja Tenrikyo e fico um mês. Eu me sinto em casa, porque é minha terra natal, mas o Brasil é melhor para viver. Aqui gosto de ir à escola falar sobre o Japão para os jovens. Falo da cultura, da comida, da política... Quando um político faz qualquer coisa errada, ele fica com vergonha e sai do cargo. E também conto da disciplina das crianças japonesas. Nas escolas não tem faxineira. Os próprios alunos limpam.

JC - Há quanto tempo está envolvido com o Clube Nipo?

Shozo - Participo do Clube Cultural Nipo-brasileiro há mais de 20 anos. Sou diretor cultural (responsável por curso de língua japonesa, taiko, etc.) e assumi esse ano a presidência, para um mandato de dois anos. É uma grande responsabilidade. O maior desafio é organizar os eventos, pois alguns são grandes, como o Undokai, que reúne mais de 12 mil pessoas. Fazemos de jantares a eventos de karaokê regional.

JC - Quais os objetivos?

Shozo - Primeiro, manter a cultura japonesa sem fins lucrativos. Também atrair mais jovens. Diminuiu a participação deles. Por isso fazemos curso de dança, festa junina, futsal, tênis de mesa e kendo (luta de espadas). O pessoal está ficando idoso, preocupa se os mais novos não chegarem. Para os mais velhos tem atividade quase todo dia, reunião de senhora, xadrez japonês....

JC - Qual a sua ligação com o Taiko?

Shozo - Há 13 anos coordeno o grupo Muguenkio Bauru Wadaiko (que significa Ressonância Infinita Bauru Taiko). Veio um professor do Japão ensinar no Brasil e comecei a tocar; hoje só coordeno. Há vários tipos de Taiko, que é grande tambor. Não é um instrumento barato. Então, para manter e comprar eu faço yakissoba e vendo nas festas para arrecadar dinheiro. No grupo participam 30 pessoas de 7 a 25 anos. Nós nos apresentamos no teatro e na Igreja Tenrikyo, em escolas e universidades, eventos em Bauru e outras cidades. O ritmo do tambor mexe com o coração, gosto muito e fico emocionado vendo as crianças tocando.

JC - É atuante na Igreja Tenrikyo?

Shozo - Estou na religião Tenrikyo (razão do céu) porque meu pai foi salvo. Quando ele tinha 5 anos foi desenganado pelos médicos, mas sobreviveu com ajuda da igreja. Ele foi missionário, eu e meus irmãos continuamos e meus filhos também seguem. Sinto que nos mantemos unidos por causa da religião. Participo de algumas atividades e a minha é uma Casa de Divulgação, onde recebo as pessoas. A igreja de Bauru é a sede do Brasil e tem 80 anos. Mensalmente vêm mais de mil pessoas de várias partes do país para participar de uma cerimônia, no segundo domingo do mês. Qualquer pessoa pode ir conhecer, pedir que vá rezar na casa de alguém doente e aprender a doutrina. Temos um livro e cursos por idade.

JC - A oração faz parte do seu dia a dia?

Shozo - Temos um altar em casa em que colocamos oferendas (frutas, legumes e verduras) em agradecimento à natureza. Fazemos oração de manhã para pedir saúde e que o dia não tenha problemas; e à noite, para agradecer, não para reclamar nem pedir coisas. Se algo ruim aconteceu também agradecemos, pois poderia ter sido pior. Aí você não fica com raiva e não pensa negativo. Também fazemos o trabalho voluntário (hinokishin). É um ensinamento da Igreja Tenrikyo, fundada no Japão há 180 anos.

JC - O que faz questão de mais preservar da cultura japonesa em casa?

Shozo - Respeito aos pais, idosos e antepassados. Também o dever de um ajudar o outro. Graças a Deus meus filhos mantêm o que a gente ensina. Rezamos pelos antepassados, é por causa deles que estamos aqui.

JC - O que mais gosta na cultura brasileira?

Shozo - O pessoal em geral é muito alegre, amigável, receptivo e hospitaleiro. O clima também é bom e a gente aprecia arroz, feijão e churrasco!

JC - Por que permaneceu em Bauru?

Shozo - É o centro do Estado de São Paulo e daqui você consegue visitar as cidades da vizinhança, é mais fácil se locomover. Fiquei também por causa da Igreja Tenrikyo. E aqui tenho minhas amizades, de brasileiros e japoneses, que não troco por nada. Ter amigos é muito importante, não há dinheiro que pague. Até saio, mas gosto de receber as pessoas em casa.

Arquivo pessoal
Em visita ao Japão: à vontade tanto lá quanto cá

JC - Sente-se realizado?

Shozo - Estou superfeliz com minha esposa e meus filhos, não tenho o que reclamar. Eu me considero uma pessoa realizada e sou muito grato ao Brasil. Não quero morar no Japão, sim aqui, e passear lá de vez em quando, é gratificante.

JC - Qual é a receita da sua vitalidade?

Shozo - Acordar cedo, comer bem e usar muito a cabeça. Não ficar pensando negativo e cuidar das plantas. Sempre penso positivo e no futuro, em deixar algo bom. Minha esposa me ajuda em tudo. Ter um casamento feliz, uma boa parceria, também é importante para viver bem. A durabilidade do casamento é um pensar no outro. Homem não é tudo e mulher não é tudo. Cada um é 50% e aí junta para ficar 100%!

JC - Quais são seus próximos planos?

Shozo - Ano que vem comemoramos 110 anos da imigração japonesa no Brasil. Estou pensando em como Bauru pode participar, o que vai fazer. Teremos várias atividades comemorativas. O que já está confirmado é o festival de taiko, no clube Luso. No dia 20 de janeiro vem um professor do Japão para ensinar em workshop; no dia 21, cada grupo vai se apresentar. Esperamos entre jovens e acompanhantes mais de 800 pessoas. Será aberto ao público e estamos atrás de patrocinador para o evento. Quem puder ajudar pode ligar para os meus telefones (14) 9 9794-5084 e 3236-2270.

PERFIL

Shozo Nakamine

Nascimento: província de Wakayama, na cidade de Kushimoto, no Japão, 5 de setembro de 1947.

Hobby: “cultivar plantas no vaso, tenho mais de 300 vasinhos com flores e frutíferas de vários tipos. Tenho prazer em cuidar, mas no vaso, tipo um bonsai”.

Alimentação: “em casa tem comida japonesa e brasileira misturada. Gosto de cozinhar. Eu mesmo faço sushi, sashimi, tempurá, yakissoba”.

TV: “assisto programação japonesa direto do Japão, com música, ciência, notícias... Acompanho tudo que acontece lá. Vejo e ligo pra minha irmã, fico sabendo antes dela que mora do Japão!”.

Filme: “gosto de assistir no Netflix! Prefiro os de ação. Minha esposa gosta de coisa romântica. De vez em quando vejo com ela e acabo gostando!”

Leitura: “só livro em japonês”

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