Articulistas

Aquele que foi e ficou

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Maria Clara teve um avô. Nenhuma novidade, todos tivemos. O avô de 98 anos morreu, mas deixou com a neta muitas lembranças. Duelavam e corriam, um atrás do outro, espadas e chapéus feitos de jornal. A barba faziam juntos, a cara lambuzada no espelho, pincel, muita espuma, menos gilete. Riam e se encantavam com Chaplin e Fred Astaire. Vídeos, pipocas e sofá. A Brasília cor de vinho, conduzida pelo avô motorista, levava a menina dançarina às aulas de balé. Iam felizes, rindo retornavam. Conversavam, sempre, muito e tudo.

Num depoimento recente, a neta Maria Clara falou dos últimos tempos dessa convivência afetiva com o avô. "De uns tempos para cá nos relacionávamos como um par sem idade e sem gênero. Eu me divertia de pensar que meu mais querido e precioso confidente era o meu avô de 98 anos e, apesar de a idade avançada ser sempre prenúncio de partida, eu não estava preparada para seguir sem ele". O avô de Maria Clara, Antonio Cândido de Mello e Souza, um dos maiores intelectuais que esse País conheceu e admirou, morreu em São Paulo, no último 12 de maio.

A vida se cumpre assim, as pessoas mais amadas um dia, infelizmente, partem. Consola-nos, porém, saber que elas de todo não vão. Conosco - bendito legado - deixam cenas inapagáveis que, mesmo doendo tanto, gostamos de relembrá-las. Aquele tio, aquela avó, aquele pai, aquele irmão, aquele amigo, aquela mãe, aquele marido, aquele que, dentre todos os amados, mais amado ficou. Cada um de nós sabe de quem estamos falando.

Um dia, menino, deitei a minha cabeça no colo da minha avó Isaura. Seus dedos carinhosos passearam docemente pelos meus cabelos. Foi o suficiente para que tão pouco minuto virasse tão eterna lembrança. Da minha vó sempre me lembro assim: menino feliz afundado num macio de amor.

Todos trazemos na nossa memória afetiva esses fiapos inesquecíveis. Por que algumas pessoas ficaram assim tão amadas e tão presentes no mais fundo de nós? Como explicar laço tão estreito, nó tão forte, que o tempo só faz mais apertar do que afrouxar? Aquele tio, aquela avó, aquele pai... Saudades do meu irmão! Saudades do amigo Lilo, que tão recente nos deixou.

Jamais poderíamos imaginar a importância da criança que fomos e que, agora, tanto evocamos. Jamais poderíamos imaginar quão importante seriam, em nossas vidas, aquele tio, aquela avó, aquele amigo... A verdade é que o tempo, sem pedir licença, envelheceu a nossa vida de gente grande. Por isso, tudo de bom que vivemos, agora queremos cada vez mais presente. As pontas do ontem e do hoje querem, em círculo, se aproximar. Revisitando o que o tempo nos tirou - subtrair é o que ele mais sabe fazer - sentimos como tudo foi bom e completo enquanto durava. Sendo chama, um dia se apagou.

Maria Clara, nas últimas linhas do seu depoimento, não se despede, posto que com ela o avô Cândido sempre estará. Apenas diz: "Embora ele próprio não acreditasse em Céu e invejasse aqueles presenteados pela fé, tenho certeza de que o que se lhe reserva é bom, como ele. E eu, aqui, neste mundo, me conforto na ideia de que tive meu céu em vida." Tocante e justa homenagem. Assim como Maria Clara, todos nós tivemos alguém que foi o nosso céu em vida. Alguém que em nós se entranhou para nunca mais sair. Alguém que partiu e ficou.

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras.

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