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Suco de abacaxi

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Foi amor à primeira teclada. Conheceram-se numa esquina qualquer do facebook. Um frisson instalou-se já nas primeiras palavras. Incrível como se entendiam, conversa alegre, insinuante, carregada de humor. Estavam em plena adolescência, momento em que as coisas não acontecem, simplesmente explodem. Ela entusiasmada: cara inteligente, quantas sacadas, papo-cabeça, moleque envolvente... Ele apaixonado: menina sensível, dizia coisas interessantes com fina ironia nas linhas e nas entrelinhas... Um encontro perfeito. Continuaram teclando na mais incrível sintonia digital.

A cada encontro, melhor ficava o entendimento. De tudo falavam, de tudo riam, trocavam fotos, tinham nascido um para o outro. Só que história assim jamais fica trancada pelas paredes virtuais. Concordaram, era hora de se conhecerem, sair do face, entrar na real, alguma intimidade.

Por que não?

Marcaram encontro. Sentaram-se no bar do shopping, o lugar preferido da galera adolescente. Incrível, ele era lindo, mais alto do que ela imaginara, mais forte, mais músculos, ele era simplesmente mais. E que narizinho lindo o moleque tinha. Ela era bem mais linda do que as fotografias revelavam. Que boquinha! Agora juntos, não paravam de falar, um atropelava a frase do outro. Bem melhor do que teclar era ficar assim, juntinhos, olho no olho. Cada detalhe tornava aquele momento mais intenso. Que pele! Que cabelos ! Ela era linda demais! Ele só não conseguia ver o que mais desejava, justamente por estarem escondidos sob a mesa, os pezinhos. Era fissurado em pezinhos. Pés pequenos, bem desenhados, unhas bem tratadas, vermelhas se possível, era esse o seu ponto fraco. Caía de joelhos por pezinhos sensuais. Impaciente, não via a hora em que os pezinhos, distraídos, se mostrassem. Ela não esperava nada, ele era tudo de bom, sobrava, ia além das expectativas.

O suco de abacaxi com hortelã, geladíssimo, subia gostosamente pelos canudinhos. Mas aí ele começou a coçar a ponta do nariz e, de repente, o dedo se enfiou inteiro dentro do nariz procurando o que não devia. Depois, a mão desceu e o dedo se limpou no assento da cadeira. Impossível, aquilo não podia estar acontecendo! Depois, o mesmo dedo coçou o ouvido e foi direto para a boca. Era porcalhice demais, ela já não conseguia respirar. Como se nada tivesse feito, ele continuava falando, mas ela já não conseguia ouvi-lo como antes.

O suco de abacaxi ficou amargo. Ela mordeu a ponta do canudinho. A cena nojenta não lhe saía da cabeça nem dos olhos: dedos sujos passeando por orelhas sujas, boca e nariz nojentos. Não mais conseguia organizar o pensamento, respondia tudo pela metade. Buscando descontrair-se, ela finalmente tirou um dos pés sob a mesa. Era, finalmente, o flagrante do pezinho lindo, tão esperado. Ele não gostou nada do que viu. Um joanete intruso desenhava no pequeno pé um disforme calo ossudo. Aquele dedão torto avermelhado era tudo o que ele não queria ver. Amassou o copo, decepcionado.

O suco esquentou de vez. Decidiram não pedir outro. Despediram-se friamente, sem beijinho, sem data de reaproximação. Mas continuam se falando pelo face e, por incrível que pareça, a conversa até que vem melhorando. De uma coisa, porém, eles têm brutal certeza: melhor ficar assim, só teclando. Melhor sem suco de abacaxi.

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