| Malavolta Jr. |
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| Lúcia Miassaca acompanhada de toda a turma do Chaves |
Os analistas e sociólogos do comportamento dizem que, quando o assunto é aprendizado, os brasileiros têm um grande poder de criatividade, têm a habilidade de fazer o que gostam com grande destreza e encontrar caminhos para a vida, especialmente a profissional, de forma mais intuitiva. Isso é um consenso. O brasileiro tem o dom de ser autodidata.
Autodidata é a pessoa que tem a capacidade de aprender algo sem ter um professor ou mestre lhe ensinando ou ministrando aulas. O próprio indivíduo, com seu esforço particular, intui, busca e pesquisa o material necessário para sua aprendizagem. Aqui, três pessoas contam como desenvolveram suas habilidades.
São histórias de vida que, inclusive, servem de estímulo. Qualquer pessoa, a qualquer momento, pode encontrar-se, trilhar um novo caminho e, acima de tudo, fazer o que gosta e com orgulho dizer: “Eu fiz”.
A encantadora de bonecos
Poderia ser só um hobby de quem tem o dom para o artesanato. Aliás, Lúcia Miassaca diz que não trabalha. “Aqui eu relaxo, minha atividade é um antiestresse”. Mãe de três filhos, avó de um neto, ela fala com orgulho deles e vai do universo masculino com o mesmo orgulho que vai para o mundo das bonecas artesanais, que a levaram a um universo nunca imaginado.
Como a maioria das mulheres da sua geração, ela aprendeu a costurar cedo. De bonecas, fez um curso há 25 anos no Sesi e poderia ter parado por aí. Mas de modo intuitivo, ampliou o que aprendeu.
Desenvolveu outros modelos, aprendeu a fazer o molde, a estrutura para montar bonecas de feltro. Foi na raça mesmo. Hoje trafega pelo mundo das princesas da Disney, pelo universo do Sítio do Picapau Amarelo, pelos personagens do Chaves entre outros.
Sempre bastante elogiada por suas habilidades artesanais, há uma década alguém a indicou para fazer bonecas especiais para o Centrinho como forma de identificação para os pequenos pacientes fissurados. Deu tão certo que as bonecas hoje são vendidas pela Profis, Sociedade de Promoção Social do Fissurado Lábio Palatal, e para atendê-los ela teve que abrir uma empresa. “Eles tinham personagens de umas estórias em livros e procuravam alguém para tirar do papel. Aí me descobriram. Fiz modelos de bonecas fissuradas e com aparelho auditivo e amaram”.
Hoje o negócio cresceu e ela passou a ser também fornecedora de bufês infantis. O que a motiva é a alegria da criançada. Lúcia conta que “a maior emoção foi quando fez um boneco de um metro para uma criança de 10 anos, autista, que nunca falou nem com os pais. Quando ele viu o boneco, abraçou e começou a falar com ele. Os pais choraram muito”.
A paixão por consertar relógios
| Malavolta Jr. |
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| Jaime Prado ao lado do relojoeiro Renato Papassoni: “aprendi sozinho, mas agora venho ajudar” |
Espécie de documentarista, seja em fotos, vídeos, garimpando livros históricos, restaurando peças antigas, procurando reunir famílias de internos no antigo “AsiloColônia Aimorés”, o fotógrafo Jaime Prado acaba de se aposentar do hospital onde trabalhou por 41 anos. Aos 64 anos vai parar? Não, nada disso. Agora abraça a restauração de relógios antigos. Já foi notícia por se dedicar voluntariamente ao conserto deles em igrejas, como de Marília. E tudo começou quando consertou uma máquina de um relógio de uma igreja, parado há 36 anos. A única vez que havia subido num campanário de uma igreja foi nos anos 70. A segunda foi para realizar o conserto. “Não sei explicar, mas Deus me deu este dom sem nunca ser relojoeiro e sem nunca ver ninguém consertar um relógio perto de mim este foi o primeiro em bauru”, conta. Vai mexendo, fuçando e não sossega enquanto não conserta.
Neste momento está debruçado em uma máquina portuguesa de 100 anos. E doando seu tempo, em meio-período a um dos únicos profissionais que ainda existem em Bauru, o relojoeiro Renato Papassoni. “Aqui sou um aprendiz de relojoeiro, o que aprendo com ele não é brincadeira, seu Renato tem 70 anos nessa profissão, é um mestre e tanto”, diz.
Vale frisar que Jaime nunca ganhou um centavo sequer por esse trabalho, faz por prazer mesmo. E é por prazer também que continua colaborando com o Morhan Nacional, que vem a ser o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase, pessoas no passado separadas de sua família. “É só juntar as peças, como unir as pessoas”, confessa orgulhoso do que faz.
O padeiro que virou empresário
| Douglas Reis |
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| Gilson Queiroz aprendeu os macetes de observar os outros |
Gilson Queiróz era um jovem empregado de revenda de bonés quando se interessou pelo ofício de um irmão numa padaria, bem próxima ao comércio onde os tais bonés eram vendidos. Gilson ia lá encontrar o irmão e gostava muito do que via. Assim que pôde, o jovem se desvencilhou da venda de bonés e se ofereceu para “trabalhar” de graça. Na verdade, foi uma troca. Ele queria mesmo é aprender o ofício. Isso foi há 22 anos.
Hoje, aos 37 anos, Gilson não só virou um padeiro como é um empresário de sucesso. Há dez anos, na Bela Vista, montou o seu estabelecimento comercial.
Escolheu a região acima do Fórum e próxima ao colégio São Francisco e se deu bem. Com a ajuda da mulher, a Maria, os negócios estão crescendo. Já tem meia dúzia de funcionários entre as balconistas e quem o ajuda no forno e fogão. E mais: crise? Que nada. Vai abrir a segunda padaria. O bairro escolhido foi o São Geraldo. “Está tudo quase pronto, só estamos esperando a entrega dos móveis planejados, os balcões, as demais instalações, os fornos estão prontos”, conta entusiasmado.
E se orgulha de ser totalmente autodidata. Mas aprendeu como? “Olhando os outros fazerem, só isso”. E a ser empresário? “Na verdade como trabalhei muito com os outros e sou bastante observador resolvi não cometer os erros que os outros cometeram. Via onde meus antigos patrões erraram e procuro não repetir isso”, conta.
Mais do que empresário, ele tem mesmo a alma de padeiro e confeiteiro. Adora uma novidade. Está sempre antenado. Os famosos macarons, tradicional doce francês, começaram a aparecer na mídia e lá estava ele experimentando. O mesmo aconteceu com os cupcakes.
Alguns são febres sazonais e ficam. Outros passam. Por exemplo: os bolos indianos (apareceram na época da novela Caminhos das Índias, em 2009) caíram no gosto de sua clientela e estão lá até hoje. Não ficou só no modismo, faz no capricho o pãozinho de água e sal. É único. Vem gente de longe para pegar o “pão nosso”, por sinal, o nome da sua padaria.


