Há quase trinta anos trabalho com o trânsito e a sua segurança. Inicialmente, no órgão gestor municipal, sempre tive a preocupação com a segurança da operação, tendo desenvolvido o Proset-Plano de Segurança no Trânsito de Bauru (1991). Como pesquisador da UFSCar, estudo o tema, principalmente a partir de experiências exitosas sobre o sistema de trânsito no Brasil e exterior.
Desde a mais tenra idade, criado em uma família cristã, aprendi que a vida humana é um dom de Deus e somente a Ele compete tirá-la de alguém. Este é o pressuposto que norteia a minha vida profissional. Não me acostumo com a ideia de que mais uma pessoa perca a vida no trânsito. Fico inconformado com a hecatombe diária no trânsito brasileiro. Não foi diferente na segunda feira (17.7.17), quando, ao ler o JC, me deparei com a notícia "Mulher morre vítima de atropelamento em Condomínio de Bauru".
Em sã consciência, é inaceitável que uma jovem senhora de apenas 38 anos, fazendo caminhada com seu marido em nas vias internas de um condomínio residencial, venha a perder a vida atropelada. Não quero aqui fazer nenhum pré-julgamento em relação à pessoa que conduzia o veículo.
Em geral, os condomínios possuem quase que exclusivamente vias de categoria funcional local, com velocidades de 30 ou 40 km/h. Segundo os tratados de Engenharia de Tráfego, um atropelamento de um pedestre por um veículo a 30 km/h tem a probabilidade de apenas 10% de produzir um óbito; a 40 km/h, 20%. Portanto, as chances de produzir mortes no trânsito em baixas velocidades são pequenas.
O que teria acontecido, então, no Lago Sul? A perícia certamente encontrará a resposta. No entanto, é sabido a priori que 90% dos acidentes ocorrem devido às falhas humanas. Estas falhas envolvem desde a distração dos condutores até o desrespeito à legislação, ou seja, excesso de velocidade, uso do celular, bebidas alcoólicas, drogas legais e ilegais antes de dirigir, falta ou uso indevido de equipamentos de segurança como o cinto ou capacete ou até mesmo dirigir cansado. Também os pedestres erram.
A partir de um olhar humanista, o parlamento sueco aprovou, em 1997, a filosofia Visão Zero no trânsito. Ela parte do princípio ético de que é inadmissível que pessoas venham a perder a vida ou ficar gravemente feridas no trânsito. Esta filosofia vem se espalhando por diversos países e vem modificando a forma de encarar o trânsito. Será que daria certo no país? O Núcleo de Estudos em Trânsito, Transportes e Logística da Universidade Federal de São Carlos vem desenvolvendo estudos no sentido de avaliar essa possibilidade.
Por fim, urge que ações em todas as esferas de governo venham a ser implementadas, promovendo uma verdadeira cultura de segurança no trânsito. Cada vida perdida significa uma dor incomensurável para as famílias. Se uma morte abala, o que dizer das cerca de 40 mil registradas anualmente no país?
O autor é professor titular aposentado da UFSCar e diretor de Mobilidade da Assenag