Tribuna do Leitor

O atraso venceu

Antonio C. Azevedo dos Santos
| Tempo de leitura: 4 min

Na votação a favor do presidente Temer, deu-se uma aliança informal entre três atores. Primeiro, uma população apática que não vai às ruas nem para bater panelas, aparentemente descrente de sua força para resgatar a política nacional da bandalheira atual.

Segundo, um mercado que deseja, com toda a razão, estabilidade política e crescimento econômico - mas que, iludido pelos próprios desejos, achou que não fazer nada era o melhor a fazer. O terceiro ator é, evidentemente, a grande parcela da Câmara dos Deputados que votou com Temer, porque só pensa em salvar-se da Lava-Jato, participar do toma lá da cá de cargos e verbas públicas e, para completar, ainda está indeciso para aprovar as reformas que o país tanto precisa.

Calcula-se que entre os 263 deputados que votaram a favor de Temer, mais de uma centena responde a inquéritos ou já virou réu em processos no Supremo Tribunal Federal. Essa turma, que é da pesada, beneficiou-se do exímio intérprete dos anseios dos parlamentares, o Presidente Temer, para consolidar sua posição na Câmara dos Deputados.

Dos 513 deputados e 81 senadores, cerca de 40% respondem a algum tipo de procedimento penal, a maioria por corrupção - fora das penitenciárias, é a maior concentração de criminosos em potencial por metro quadrado que existe no território nacional.

A tríplice aliança - entre o eleitor apático, o mercado à nada fazer e banda podre do Parlamento - representa um atraso monumental ao que pareciam conquistas recentes: a intolerância ao assalto à maquina estatal e a exigência crescente de ética na política. A decisão dos deputados de impedir que Temer seja investigado, apesar de suspeitas alarmantes, não honra um país que mal começou a tentar higienizar a política. O resultado é um monumento à demagogia, à corrupção e à estupidez.

Temos uma aberração, a Justiça Eleitoral, que existe para dar ao país eleições exemplares, mas permite a produção dos políticos mais ladrões do mundo, como também o eleitorado, em grande parcela, é ignorante, desinformado e desinteressado pelos seus direitos.

O Supremo Tribunal Federal, que na teoria tem a função de servir como o nível máximo da Justiça brasileira, está na contramão das cortes suprema dos países desenvolvidos. Seu último feito, possivelmente sem similar em nenhuma outra nação, foi aprovar o perdão perpétuo para o autor confesso de mais de 200 crimes, dono de um patrimônio de bilhões de dólares, atendendo a um pedido até hoje inexplicável do procurador-geral da República, que na teoria, é encarregado justamente de pedir a punição dos criminosos.

Temos 35 partidos políticos, que se reproduzem como ratos, alguns não tem um único deputado ou senador no Congresso, quase todos são criados apenas para meter a mão nas verbas de um "fundo partidário", que já anda perto de 1 bilhão de reais por ano, tirados dos impostos pagos pelos contribuintes e distribuídos aos políticos. Também recebem uma cota de tempo no horário eleitoral obrigatório, que põem á venda nos anos em que há eleição.

Dos quatro presidentes eleitos após a volta das eleições diretas, em 1989, dois foram depostos por impeachment e um está condenado a nove anos e meios de cadeia. Na última campanha presidencial, a candidata Dilma Rousseff gastou $ 300 milhões de reais, boa parte fornecidos pelos maiores criminosos confessos do Brasil. Com 60.000 assassinatos por ano, o Brasil é hoje um dos países onde a vida humana tem o menor valor.

Há uma recusa sistemática em combater o crime por parte de nove entre dez políticos com algum peso; o maior pavor deles é ser considerados, por causa disso, como gente de "direita". Acham melhor, como as classes intelectuais, os comunicadores e os bispos, falar mal da polícia. Pode passar pela cabeça de alguém que exista democracia num país que tem 60.000 homicídios por ano?

A democracia, até agora, é uma experiência que não deu certo por aqui, e por todos os motivos acima o atraso está vencendo a nossa frágil democracia, e o que é pior corremos o risco de nas próximas eleições de 2018 ainda ter de escolher candidatos que de alguma forma patrocinaram toda esta podridão. Votar com ética em quem tem ética é a única solução.

Em matéria de atraso e democracia, como em tantas outras coisas que separam as nações desenvolvidas das subdesenvolvidas, o Brasil ficou só na foto.

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