Tudo se resolvia no braço quando o homem palavras não tinha. O mais forte determinava o que dele seria e o mais fraco (fazer o quê?) simplesmente obedecia. Tempo difícil esse em que o homem-bicho apenas rosnava, nenhum outro sinal emitia. A experiência de viver em grupo, contudo, obrigou-o a desenvolver melhor forma de comunicação. Impossível viver assim na base da porrada. Então, do grunhido desarticulado, ele chegou à palavra e desta, à frase, ainda que raquítica, não mais do que um fiapo de pensamento. Palavra puxando palavra, frase amarrando frase, foi assim que, na linha do tempo, as bocas começaram a se entender com as orelhas. Um falava o outro respondia, um negociava, o outro exigia... Mais do que isso, algo impressionante acontecia. Até o pensamento mais longo, que até então se escondia, a cara começou a mostrar. Era pensar e a boca dizia.
Hoje, malabarista das palavras, o homem faz do verbo aquilo que quer. Faz discurso e ganha eleição, poesia e ganha coração, tratados de pura erudição. Mesmo assim, inquieta-nos aguda contradição: o mesmo pensamento que no passado vivia escondido, agora mais escondido ficou. Já Voltaire, em fina ironia, dizia: "os homens inventaram a linguagem com o intuito de ocultar seus pensamentos". Estranho, as pessoas falam para não dizer. Delas só conhecemos o que nos permitem ver.
Hoje, tamanha é a competência retórica com que se trata a linguagem, que todo cuidado é pouco. As orelhas que se cuidem. Habilmente arrumadas, as palavras mais escondem do que revelam. Bocas eloquentes usam-nas com o apuro daqueles que vaidosamente se vestem: existe toda uma produção no modo de dizer , estratégias na forma de envolver, efeitos previamente calculados, mais entrelinhas do que linhas. Os profissionais da palavra, especializados no jeito esperto de falar, tagarelam em todos os lugares. Os publicitários descobriram que, seduzindo, a palavra é dinheiro; os políticos perceberam que, mentindo, a palavra, além de dinheiro, é poder; falsos religiosos, disso tudo sabendo, rezam, nos templos, com a calculadora nos bolsos.
Por que tanta preocupação em se esconder? Ocultar o pensamento passou a ser uma forma de se proteger. Rousseau já pontuava que "não se sabe de onde é um homem antes que ele tenha falado". Abrir a boca, portanto, é entregar ao outro a carteira de identidade.
Daí o cuidado de recobrir as palavras com uma camada cosmética de beleza, casca de mentira, maquiagem para a verdade ocultar. Daí a necessidade de interpretar o que foi dito, de sondar as entrelinhas, de buscar nos olhos, sempre reveladores, o que a boca quer esconder. Quanto trabalho dá, quanta dificuldade há em ser, hoje, leitor atento, ouvinte desconfiado.
Mas a vida nunca teve um lado só. Existem bocas diferentes que nada querem esconder. Transparentes e verdadeiras, assim gostam de ser. Também elas arrumam as palavras, mas não para enganar, apenas para melhor dizer. A cronista Nathali Macedo confessa-se assim, só fala o que pensa e se desnuda no que diz. Nenhum medo do outro, desejo intenso de se traduzir. De forma criativa, assume-se "verborrágica", o que para ela é bem diferente de tagarela ser: "O tagarela fala sem parar, sem filtro e sem bom senso. O verborrágico fala muito e fala o necessário. Fala o que pensa, o que sente, o que o outro precisa ouvir. Fala com os instintos e com o coração, não tem medo de cuspir pela boca."
Entre e a palavra que esconde e a que quer mostrar, há uma decisão a tomar. Esconder é sempre um jeito triste do outro se afastar. Do próximo ninguém se aproxima sem a verdade dizer.