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Do medo ao terror

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

"No tinc por!" - "Não tenho medo! " A multidão gritava em catalão. Cem mil pessoas se aglomeravam na Praça Catalunha, no coração de Barcelona, para homenagear as vítimas do atentado terrorista nas Ramblas. O medo é uma emoção. Isso significa que é uma experiência que se obtém, passivamente, fora de qualquer controle. Independe de nós. Ter medo é sentir no momento presente uma incerteza desesperadora do que pode ocorrer de negativo no futuro. Quem disse foi Descartes (1596-1650). Na sua época, ele já retratava o método (cartesiano, evidente) de espalhar o terror para facilitar a dominação. Justamente o que deseja o EI (Estado Islâmico): a emoção-choque, precedida de surpresa. Jean-Paul Sartre observou com precisão que quem não sente medo não é normal; isso não tem nada a ver com a coragem. Os extremistas procuram os locais emblemáticos para seus atentados, para que a repercussão seja ainda maior e o número de vítimas civis beire a catástrofe.

No passado, os principais medos vinham da natureza: as epidemias - especialmente a peste negra e a cólera -, as más colheitas que levavam à fome, os tremores de terra. Depois vieram os conflitos entre nações com dimensões de hecatombe, como os 40 milhões de mortos na Segunda Guerra Mundial e com o uso da bomba atômica em 1945. Hoje, os atos terroristas procuram fazer dos turistas de bonezinho e óculos escuro as suas principais vítimas. Ociosos e privilegiados, na concepção deles. Os perigos e os medos oriundos da guerra ainda não desapareceram, mas tornaram-se menos importantes. Os fundamentalistas islâmicos conseguiram passar a ideia de que ninguém está protegido em lugar nenhum. Sequer no Brasil. Novidade nenhuma, para nós. Mata-se muito mais no Rio de Janeiro, com outras motivações. O medo torna-se, cada vez mais, o medo do próprio homem. Ninguém está protegido e um camicase pode aparecer em qualquer lugar.

Na Poética, Aristóteles chamava de "purificação do temor" o fato de cada expectador se transformar num justiceiro em potencial. Entenda-se: o mal que está em torno de nós nos obriga a pensar as relações entre causa e efeito, entre bem e mal, e também as relações que ligam os indivíduos em sociedade. Em síntese, serve para vincular nossa experiência íntima com a configuração global do mundo e suas injustiças. A ponto de tomarmos alguma providência. O problema, digo eu, é misturar razão e paixão. Aí, é difícil segurar.

Estive em Barcelona agora em abril, na primavera ainda úmida. Fui à Praça Catalunha com minha esposa, onde começam as Ramblas. Era Dia de São Jorge, padroeiro da cidade. A cruz de São Jorge está em todas as partes, nos monumentos, prédios e igrejas. Faz parte do escudo do Barça. Na Catalunha, o dragão atacado pela lança do santo montado a cavalo, está associado à figura do estrangeiro que deseja acabar com a autonomia e liberdade da região. O centro da cidade estava cheio de "mossos desquadra", como eles chamam a guarda urbana. Temia-se atentados, mas por parte dos próprios catalães separatistas. Barcelona recebe oito milhões de turistas por ano. Nos calçadões circulam 300 mil pessoas por dia no vai-e-vem, de todas as nacionalidades.

Em La Boqueria, o mercado central onde se encontra até a brasileiríssima coxinha, turistas em bando de excursão nem são admitidos. Justamente essa "indústria" lucrativa é que os xenófobos decidiram atacar. Picharam paredes - "tourist go home" -, promoveram manifestações - "Barcelona non està en venda". Antiturismo. No dia 1 de outubro haverá um plebiscito sobre a independência da Catalunha, não previsto na constituição e sem o reconhecimento do governo central em Madri. Por ironia, a tragédia veio dos radicais islâmico que eles pensavam estar sob controle.

Desde o atentado na Estação Atocha, Madri, em março de 2004, com 191 mortos - diziam os jornais - 3 mil agentes trabalhavam na vigilância de 1 milhão de sunitas ultraconservadores residentes na Península. Eles têm cidadania europeia e podem circular livremente por Nice, Berlim, Estocolmo, Paris, Londres, onde ocorreram atentados com o mesmo modus operandi. Na internet, o Estado Islâmico ensina táticas de terrorismo "low cost". Como matar os infiéis sem custos elevados, sem necessidade de grande treinamento em terras do califado.

Os jihadistas publicam: "Se você não for capaz de encontrar uma bala ou um IED (sigla em inglês para uma bomba caseira) então escolha um americano, francês ou qualquer dos seus ímpios aliados. Ataque-o na cabeça com uma pedra, mate-o com uma faca, passe por cima com um carro, atire-o de um lugar muito alto, estrangule-o ou envenene-o". É o terrorismo sem face humana. Tenho medo.

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