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Entrevista da semana: Selma Campos Passanezi

Giselle Hilário
| Tempo de leitura: 6 min

Samantha Ciuffa
Selma Campos Passanezi: "Se cada um fizesse um pouco pelo outro, a situação não estaria tão ruim"

Selma Campos Passanezi é dessas pessoas que a gente consegue ficar a tarde toda conversando fácil, fácil. Fala com paixão da profissão e do trabalho que desenvolve através do Lions Norte, do qual é presidente. Mas derrete-se ao citar os netos - João Eduardo e Gabriela -, os filhos, genro e noras - Adriana e Eduardo, Ricardo e Danielle e Gustavo e Carla - e o marido, Euloir. E o brilho nos olhos surge ao descrever o voluntariado: ela nasceu para isso. Dentista, Selma orgulha-se do trabalho social que desenvolveu com crianças ao longo de sua carreira. "Morro de saudade. Tive o privilégio de trabalhar numa coisa que eu gostava muito e que fazia um bem enorme para as pessoas." Leia os principais trechos da entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Nós nos conhecemos há anos e a senhora sempre foi "agitada", cheia de afazeres... 

Selma Campos Passanezi - Posso dizer que sou uma pessoa meio aposentada. Aposentei, mas continuo trabalhando bastante. Gerencio tudo da minha casa, tudo o que diz respeito à nossa família, consultório. Ainda atendo pacientes em meu consultório, mas numa carga de trabalho menor. E esse tempo a mais tenho mesmo dedicado ao Lions Norte. Fui eleita presidente para o período de julho de 2017 a julho 2018 e ainda há muito trabalho para se fazer.

Arquivo pessoal
Selma e Euloir: companheiro de vida desde a faculdade

JC - Vocês têm se dedicado, entre outras coisas, ao projeto Lions Quest.

Selma - É um projeto do Lions Internacional muito interessante. Quest é desafio. É um programa que envolve aluno, escola, professores, pais e a comunidade para prevenir o uso de álcool, drogas, violência. O objetivo não é só trabalhar o vício, por exemplo, mas a prevenção. É mostrar para o jovem que ele tem outras opções. Então, o Lions Quest facilita a comunicação, estimula os jovens a descobrirem suas habilidades, a ter estima elevada, responsabilidade, respeito, solidariedade.

JC - E como é o trabalho?

Selma - Trabalhamos utilizando livros que são impressos no Brasil. Nossos clubes financiam as compras desses livros e há uma parceria com a prefeitura. Hoje, estamos em três escolas, mas a atual admistração pretende implantar em todas as escolas da cidade. Funciona assim: após o treinamento, o professor aplica o Lions Quest em sala de aula uma vez por semanal, por uma hora. Na Emef Nacilda de Campos, onde estamos desenvolvendo o trabalho junto com o Lions Sul com alunos de 7ª série, deu tão certo, que estamos abrindo para outra classe. E não é projeto que tem começo, meio e fim. Todo ano tem mudança de livro.

O jovem vai sendo estimulado a aprender a assumir responsabilidades, estabelecer metas, tomar decisões responsáveis.

JC - A senhora sempre foi envolvida com social?

Selma - Tenho 38 anos de Lions. E a minha vida profissional também foi envolvida com coisas sociais. Entrei na prefeitura em 1984, no Núcleo do Ipiranga, o primeiro de Bauru, implantado no governo Tuga Angerami, que teve dentista. Fiquei até 1986. De 1986 a 1990, fui para coordenação, na Secretaria de Saúde. Em 1990, a Faculdade de Odontologia me solicitou para que eu fosse trabalhar com eles no que a gente chamava de área de campo. Na disciplina de odonto social, a faculdade tinha duas clínicas montadas. Uma na Casa do Garoto e outra na creche do Redentor.  Eu ia com os alunos todos os dias, o dia todo, e fazíamos atendimento em crianças e familiares dessas entidades.

Arquivo pessoal
Gabriela e João Eduardo: netos queridos e paixões da avó

JC - Para o aluno, atividade bem interessante, já que ele tinha contato com outras realidades.

Selma - Era. A gente teve uma disciplina que chamada saúde da família e comunidade. Me serviu até para eu conhecer e mostrar para eles como é a realidade. Num dia da semana, visitava a família da criança. Então, a gente via onde a criança morava, como ela vivia, passava  a orientação pra família na casa dela. Atendia aquela criança e a família também. Muitos não tinham contato com escova de dente. Mas não havia recriminação. Às vezes, era uma casa em que mãe trabalhava o dia inteiro, chegava em casa e tinha de dar conta dos afazeres, cuidar dos filhos. A última coisa que ela lembrava era dos dentes. Muitas vezes, nem tinha condições de comprar pasta ou escova de dentes para todos.

JC - Muitas vezes, uma realidade chocante para alguns...

Selma - Eu tinha as duas realidades, de consultório e de serviço público. E sempre quis mostrar para o aluno que o que se faz no serviço público, se faz no consultório. Não dá para pensar "aqui é de um jeito, lá é de outro". Atendimento é tudo igual. O cliente é igual. O ser humano é igual. A linha de trabalho tem de ser igual nos dois lugares, independente da situação financeira, da condição social. 

JC - Foi nesse momento que você percebeu a importância do voluntariado?

Selma - É muito gratificante ser voluntária. Quando você entrega um brinquedo para uma crianças e ela diz "Deus te abençoe", você já ganhou o seu dia. O voluntário abre mão de si em favor da outra pessoa. E isso é muito gratificante e importante. Hoje em dia, mais ainda. Tem muita gente precisando. E se todo mundo fizesse alguma coisa pelo seu semelhante, a situação não estaria tão ruim.

JC - E a senhora, através do Lions, ainda está na Legião Feminina.

Selma - A gente dirige a Legião Feminina, que foi fundada pelo Lions Norte e Lions sul há 45 anos. É um trabalho muito importante, porque dá a meninas de 16 anos até antes de completar 18 ferramentas para o primeiro emprego, uma coisa difícil de se conseguir, se você não está preparado. É um trabalho respeitado e sério.

JC - A senhora sempre aliou a profissão com o voluntariado. Sempre quis ser dentista?

Selma - Sempre. Desde menina. Com a vinda da Faculdade de Odontologia para Bauru, ficou mais fácil. E, depois de formada, sempre trabalhei com crianças. Questão de afinidade.

E a odontologia me trouxe muitas coisas boas, inclusive meu marido [risos]. Arrumei meu marido na faculdade. Eu era aluna e ele, professor. Estava no terceiro ano e ele começou a dar aulas. Ele fala que eu precisava tirar nota, por isso comecei a namorar com ele. Mentira [risos]. E não teve problema. Meu marido é extremamente ético com tudo. Ele nunca  entrou no meu box de trabalho, nunca corrigiu uma prova minha. Sempre era outro professor. Então, não teve problema.

JC - E a aposentadoria do consultório, de fato?

Selma - Vai chegar o momento que eu vou parar. Comecei em janeiro de 1969. Tenho pacientes que comecei a atender ainda bem crianças, e hoje atendo os filhos deles. Então, é uma ruptura difícil. Por isso, não sei quando vou parar. O coração vai dizer.

PERFIL

Selma Campos Passanezi nasceu em 23 de dezembro de 1946. É casada há 47 anos com Euloir Passanezi. Eles têm três filhos, Adriana, Ricardo e Gustavo, casados com Eduardo, Danielle e Carla, respectivamente. Selma tem dois netos, João Eduardo e Gabriela, suas paixões. Mas quer mais. "Ainda espero ter meia dúzia. Não perco a esperança. Rezo todas as noites", brinca. Hobby? Não tem, mas gosta muito de cozinhar. Por isso, é sagrado: todo domingo, todos almoçam lá. Ela não abre mão disso jamais. E faz questão de cozinhar tudo o que todos gostam. Especialmente os netos. "A vida passa tão rápido que a gente tem de fazer alguma coisa para quando não estiver mais aqui e seus netos se lembrarem de você com carinho", justifica. Nota 10 Selma dá para o marido, Euloir, "uma pessoa espetacular" e para o ser humano que se dedica ao voluntariado. E dá nota zero para todos os políticos corruptos. "Tá difícil."

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