Os investidores do mercado financeiro deliraram com a bomba de efeito lançada pelo governo Temer. Venda-se a Eletrobras. E mais uma lista de 50 ativos estatais, entre eles a centenária Casa da Moeda. São trucadas de um governo fraco, encurralado pelo rombo das contas públicas e pelas dificuldades de liderar um plano de reformas liberais. Lembra o personagem de Gabriel García Márquez em "O Outono do Patriarca". O supremo mandatário de um pais da América Latina, não especificado, se vê premido pela deterioração moral e financeira do Estado. Resultado da ineficiência de tudo o que é público, distribuído entre apaniguados incompetentes e corruptos. Começa a vender o mar em pedacinhos.
O realismo mágico do velho Gabo parece uma antevisão do nosso pré-sal. Depois chega a vez das coisas de valor, em terra. Sobra o Palácio, onde pastam vacas no jardim. Bois e galinhas invadem a moradia do "Supremo Benefactor de La Pátria". Nascido de um "golpe", o papel do líder já é questionado. Manda sem poder. É exaltado sem glória; obedecido sem autoridade. No seu apetite sexual senil é consolado por Manoela Sanchez, uma rainha de beleza. O autor, faz um trabalho de imersão sobre a mitologia no Continente. Os ditadores entraram em desuso, hoje. Mas, os desatinos continuam, mesmo à luz da democracia, alimentados pelo jogo de interesses e pela corrupção. O retrato desse caos é dado pela própria estrutura do livro onde cada um dos seis capítulos têm um parágrafo só não há vírgulas travessões e separações entre as falas sequer identificações da narração da descrição da enumeração de itens e outros sinais gráficos de pontuação só a leitura preenche as lacunas
Parece o Brasil do mistifório. Obrigado a vender até a fábrica de dinheiro que, por ironia, dá prejuízo. Os problemas com a Eletrobras decorrem de ineficiências acumuladas ao longo de 15 anos. A má gestão, o compadrio e a privatização do público em benefício de grupos, produziram R$ 250 bilhões em prejuízos à sociedade. É evidente que a privatização não vai reduzir a conta de luz. O aumento das tarifas será inevitável, no pós-venda. Pelo menos o prejuízo deixará de pesar no bolso do contribuinte. A companhia é alvo da Operação Lava Jato por suspeita de desvio nas obras de Angra 3. A alteração de tarifas de eletricidade no governo Dilma, que reduziu os valores em 20%, pode ter produzido aquela visagem de "benefactora del pueblo" à presidenta. Pelo menos até que a conta chegou e os ajustes tiveram que ser feitos. Não há Tesouro que resista compensar tantos prejuízos. A venda da Eletrobras pode apurar uns R$ 30 bilhões, mas a dívida ultrapassa R$ 47 bilhões. Só para a Petrobras, a Eletrobras deve R$ 16 bilhões. Comprou gás e não pagou.
Sindicatos de funcionários de empresas públicas costumam ser os primeiros a levantar barricadas contra a privatização de estatais. Temem a cultura administrativa do mundo privado, onde não há condescendência com maus profissionais e vigora o princípio do mérito. A resistência também vem dos políticos. Mas não só por motivos ideológicos. Essa rejeição à venda de estatais vem da cultura pluripartidária do fisiologismo. Os financiamentos de campanha e a corrupção costumam ser alimentadas no mundo das empresas públicas.
Depois do anúncio da privatização da Eletrobras, políticos nordestinos passaram a defender a manutenção da Chesf como estatal. "Para o bem da região e dos nordestinos". O mesmo acontece em relação a Furnas. Já foi reduto do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. O senador tucano Aécio Neves e outros, também aparecem em histórias de desmandos na administração da central energética. Unem-se os políticos mineiros - Aécio junta-se ao petista Fernando Pimentel, o governador - para a compra das usinas em leilão, mediante um exótico empréstimo negociado com o BNDES. Como se fizesse sentido um banco de fomento bancar uma operação comercial por conveniência política. Minas quer comprar as usinas federais com dinheiro do governo federal. Estão em jogo muitos interesses que nada têm a ver com quilowatts. Eles querem o controle para poderem indicar diretores, nomear apadrinhados e achacar fornecedores. Como Temer é um presidente fraco, está sujeito a pressões e tudo pode acontecer. Os políticos mineiros até apoiam as privatizações, desde que seja excluída Furnas.
Em resumo: a melhor e única alternativa sensata é vender a Eletrobras. Que entre no pacote portos, aeroportos, estradas e tudo mais o que não funciona no país. Vai sobrar mais para a educação e a saúde. É o que interessa.