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O naufrágio da utopia

Henrique Matthiesen
| Tempo de leitura: 2 min

Correlato ao mais íntimo cerne da espécie humana, o sonho tem a utopia como norteador de suas ambições. Originário da justaposição dos termos gregos antigos, criado por Thomas More, a adjacência serviu para título de uma de suas capitais obras escrita em latim, por volta de 1516, apresentando os aspectos basilares das necessidades renascentistas de um projeto humanista de transformação social, onde um governo organizado proporciona ótimas condições de vida, baseado na mais perfeita equidade de justiça social.

Ideal civilizatório, a utopia cumpre o papel de ser a nau orientadora das lutas de classe, da busca incessante de justiça, da casta essencial dos sonhos. Impulsionador e aglutinador, sofre o revés dos fracassos e recuos erigidos nas ideologias ou na desesperança da frustração social em que vivemos. Ponto decretório de uma das mais violentas depressões utópicas foi a derrubada do muro de Berlim e o colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Ali, muitos historiadores, sociólogos e cientistas ajuizaram o fim da utopia socialista e a bipolarização chegara ao seu derradeiro ato.

No Brasil também tivemos muitos eventos onde a utopia naufragou em meio aos turbilhões dos revoltos acontecimentos, onde a desesperança atingiu incontestemente nossa sociedade. Ato parvo foi a oposição insensata criminosa e caluniosa que fizeram contra Getúlio Vargas, em 1954, levando-o ao suicídio. Esse evento provocou as mais inesperadas reações populares, revertendo o clima de condenação delirante dos que agrediam e vilipendiavam o governo. Outro ato merecedor das desilusões pátria foi a derrota da Emenda Dante de Oliveira, e a morte de Tancredo Neves que mergulhou nosso povo em depressão e desapontamento.

Entretanto, o mais recente ato naufrágio foi a desilusão com o PT e seu governo. A injustificada aliança com as velhas e repugnantes oligarquias, a prática corruptiva que tanto o PT condenou em sua história, a covardia e acomodação em não enfrentar a luta de classe, a retórica aleivosia vazia, provocaram a mais profunda perplexidade social.

Mais uma vez a utopia naufragou na crença de que um governo do PT seria diferente. Extraordinária, porém, é a força renovadora da existência humana que ainda busca um novo sonho, um novo norte, porque a luta pela justiça social e pela equidade é ainda percussora que fazem o homem avançar.

Afinal, a utopia é apenas uma opinião, não um fato consumado.

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