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Pacto com o nosso sangue

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

No Brasil a realidade supera a ficção. As novas gravações do empresário Joesley Batista; as confissões de Antônio Palocci e os 51 milhões de reais acondicionados em caixas e malas vão além da imaginação de qualquer brasileiro, com ou sem emprego. Ateou fogo nos meios políticos e judiciários a entrega equivocada à Procuradoria Geral da República da gravação de um diálogo impensável entre Joesley Batista e seu executivo Ricardo Saud. Entre goles de uísque de 25 anos de envelhecimento e bocados de picanha no palito, os diretores da JBS se jactam de "moer, dissolver o STF". Executivo e Judiciário são dados como dominados à custa de muitos milhões.

O Legislativo, coitado, já teria sido detonado pelas próprias mazelas. Nessa conversa de bêbados, segundo jornalistas de Brasília, Joesley disse que a ministra Carmen Lúcia havia sido namorada de Itamar Franco, ao qual serviu quando ele era governador de Minas. Mentiu em tom de deboche. O magarefe goiano falou da vida particular de outras autoridades. Na desossa descreve a "suruba aérea" num voo para Miami. Um senador do Nordeste a bordo, recusou-se a participar. A Polícia Federal caça maiores informações. Como, minha senhora?

Como é que o espertalhão geral da República entregou uma gravação com esse conteúdo a Rodrigo Janot? Explica-se: Ricardo Saud foi encarregado pelo patrão de gravar uma conversa com um deputado de Goiás que estivera antes na mesma mesa de bar. Por ignorância tecnológica, não soube desligar a geringonça. O desejo era "f..." o parlamentar. Na pressa, mandaram tudo o que tinham em mãos quando a Procuradoria ameaçou invalidar a delação premiada, por omissões. A conversa compromete o ex-procurador Marcelo Miller. Ele foi o braço direito de Janot e construtor das regras para a delação dos irmãos Batista, de Sérgio Machado (Transpetro), do ex-senador Delcídio Amaral e do operador de propinas Fernando Baiano. Quem está rindo disso tudo é o presidente Temer. Há risco de invalidação das provas obtidas contra ele. O então procurador Marcelo Miller teria preparado o flagrante, o que é ilegal, instruindo Joesley a gravar o presidente no Jaburu. Na noite de sexta-feira, Janot pediu a prisão preventiva de Joesley, Ricardo e Marcelo. Este, por envolvimento com organização criminosa; exploração de prestígio e obstrução da justiça. Temer já vinha explorando o fato de Marcelo Miller ter pedido demissão do MP para trabalhar num escritório que defende interesses da JBS. Trocou um emprego de R$ 50 mil, com os penduricalhos, por outro de honorários que chegam a milhões de reais.

"Pacto de Sangue" não é nenhum título de novela de suspense. A denominação foi dada por Palocci ao acordo entre o empresário Emílio Odebrecht e Lula, que teria envolvido um "pacote de propinas" de R$ 300 milhões ao petista. Foi em 2010. O pacote incluía o sítio em Atibaia e uma sede para o Museu do Lula. O imóvel, de R$ 12,4 milhões, acabou descartado. Para o Instituto Lula, foram dados R$ 4 milhões para tapar buracos nas contas. A fim de atender as despesas do dia a dia do ex-presidente, foram contratadas palestras a R$ 200 mil cada. Livres de impostos, despesas com o jatinho, refeições e hospedagem.

Outro resumo emblemático é o que se refere ao uso do pré-sal para financiar o projeto de poder do PT e sua eternização no Planalto. Segundo Palocci, "sempre com o conhecimento de Dilma Rousseff". Lula determinou que o programa de construção de sondas para a Petrobras servisse para financiar este projeto de poder e a eleição de Dilma. As tratativas resultaram em prejuízos de R$ 5,5 bilhões à Petrobras. Só para a cúpula do aliado PMDB, rendeu R$ 864 milhões em propinas. A cúpula do partido acaba de ser denunciada por Janot: Renan, Lobão, Jader Barbalho, Valdir Raupp, Sarney (pai) e Sérgio Machado, da subsidiária Transpetro.

Mesmo que consiga apresentar-se como candidato, o desfile de suspeitas e acusações a envolver Lula pode ter um impacto nas urnas. O PT vai perder as eleições se mantiver Lula, mas sem Lula provavelmente também. Tirar Lula agora geraria mais problemas.

Os R$ 51 milhões em espécie, encontrados na "caverna do tesouro" do Geddel, entrariam na literatura ficcional apenas com uma "gag" (chiste, piada). Humilham as malas do mensalão e ridiculariza a corridinha com a maleta dos 500 mil reais desde a porta da pizzaria, pelo homem de confiança de Temer. A dinheirama daria para comprar 25 mil pulseiras eletrônicas. Geddel, em prisão domiciliar, não tinha nenhuma para monitorá-lo, por falta de verba. O trágico de todos esses pactos e que neles o que corre é o sangue dos brasileiros.

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