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| Neste ano: partos na adolescência na Maternidade Santa Isabel representam 6% do total de procedimentos, que chegou a 2.379 até agosto |
Polêmica e muitas vezes indesejada, a gravidez na adolescência registrou queda no último ano em Bauru, acompanhando uma tendência observada em todo o Estado, que, inclusive, atingiu a menor marca em 18 anos. Políticas públicas e um maior empoderamento feminino têm contribuído para tal realidade.
De janeiro a agosto, o número de partos de meninas com idades entre 10 e 17 anos na Maternidade Santa Isabel, principal hospital público do tipo em Bauru e microrregião, caiu 16%: 172 no ano passado para 144 neste ano, um total de 28 casos a menos. Os dados são da Fundação para o Desenvolvimento Médico Hospitalar (Famesp), gestora da unidade.
Dos 144 partos realizados até agosto deste ano na maternidade, dez eram de adolescentes na faixa entre os 13 e 14 anos e os outros 134 correspondiam a meninas com idades entre 15 e 17 anos.
Para efeitos comparativos, os partos na adolescência representavam 6% do total de procedimentos do tipo, que chegou a 2.379 até o mês passado na maternidade.
Em 2016, os partos de meninas entre 15 e 17 também eram maioria (162), mas, naquele ano, houve registro de gestante criança, entre 10 e 12 anos. Os outros nove casos eram correspondentes a meninas com idades entre 13 e 14.
ESTADO
Em todo o Estado, a gravidez na adolescência atingiu seu menor nível em 18 anos, conforme anúncio feito nessa sexta-feira (22) pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB).
Em 2016, 79.048 gestantes menores de 20 anos tiveram filhos no Estado, o que equivale a 13,2% do total de nascimentos no ano passado. Em 1998, o índice foi de 20%, com 148.018 mães nessa faixa etária. A queda é gradativa. Há dez anos, 16,3% das gestantes tinham menos de 20 anos. Em 2007, 97 mil mães estavam nessa faixa etária. Na grande maioria dos casos, essas jovens tornaram-se mães com idade entre 15 e 19 anos.
RUPTURA CULTURAL
| Divulgação |
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| "O adolescente sempre teve informação. O que estamos conseguindo é mudar a atitude", disse Albertina Duarte |
A coordenadora do Programa Saúde do Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, Albertina Duarte Takiuti, conversou com o JC nesta sexta e comemorou os números. Para ela, a conquista não é reflexo apenas de um cenário de mais informações aos adolescentes, mas sim de uma quebra cultural. "Eles (os adolescentes) já tinham informação lá na década de 90. Sabiam que era preciso usar o preservativo já nessa época. O que estamos conseguindo mudar é a atitude, romper a insegurança", disse, em entrevista por telefone.
Nesse contexto, ela cita a palavra 'do momento' como fundamental para romper esse paradigma: o empoderamento. "As adolescentes viveram por muito tempo na cultura do 'medo de não agradar'. Não exigiam que o parceiro usasse o preservativo por achar que tinham que agradar a ele. Esse empoderamento maior, que passa pela relação de gêneros, rompe com isso, com essa insegurança", complementa.
Segundo ela, todo esse trabalho de ruptura atitudinal se dá por meio de políticas públicas adotadas no Estado, com parcerias com os municípios, e da qualificação de equipes nos serviços de saúde. "São 14 mil profissionais treinados, capacitados. Esses profissionais sabem que não adianta fazer palestra. Precisam quebrar a insegurança dessas jovens. E fazem isso falando da realidade dessas jovens, mostrando que a cultura do prazer é melhor do que a cultura do medo ", complementa Albertina, citando, como exemplos de ações com os jovens, apoio psicológico e dinâmicas de grupo.
CASAS DO ADOLESCENTE
A médica também destaca a consolidação de serviços específicos, como a distribuição gratuita de preservativos e contraceptivos em todo o Estado, bem como a consolidação das Casas do Adolescente. "Esses espaços estão em locais muito vulneráveis, onde a rede deixa a desejar. Bauru não tem uma porque possui uma rede considerável com muitos profissionais capacitados. Mas, queremos, sim, que a cidade tenha uma Casa do Adolescente para atender toda a região. E o Estado será parceiro nisso", complementa.
A Casa do Adolescente oferece atendimento multidisciplinar, com médicos, dentistas, fonoaudiólogos, assistentes sociais, enfermeiros, psicólogos e professores. Há oficinas, bate-papos e terapias em grupo para que os jovens exponham seus sentimentos, recebendo orientação especializada.
Por fim, a coordenadora do Programa Saúde do Adolescente aborda algumas das consequências da gravidez da adolescência para ressaltar a importância de discutir o tema e, acima de tudo, comemorar a redução nos índices. "Estamos em festa. A gravidez na adolescência gera uma série de consequências, como os índices de mortalidades materna e infantil. Além da questão da saúde, há toda uma série de consequências sociais, como abandono escolar, violência contra a criança, entre outros", conclui Albertina Duarte Takiuti.
Riscos
Médico e diretor do Departamento de Unidades Ambulatoriais (DUA) de Bauru, Paulo Carlotto, fala sobre os riscos da gravidez na adolescência. "Pode ocorrer dificuldades durante o parto por imaturidade da pelve, maior risco de lesões durante o parto normal, aumento no índice de rejeição ao bebê, além de problemas emocionais próprios da adolescência que poderão aumentar o índice de depressão pós-parto", cita o médico.
Nestes casos, geralmente, as gestantes, além de terem o pré-natal acompanhado, também recebem atenção especial do município por conta do alto risco.
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'Sociedade em geral teve mudanças'
Responsável pelas políticas públicas para essa faixa etária, o Departamento de Unidades Ambulatoriais (DUA) da Secretaria Municipal de Saúde também aponta como possíveis responsáveis pela diminuição a mudança comportamental e o maior acesso aos métodos contraceptivos, hoje dispostos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). O órgão também acredita que a queda possa ser resultado da posição que a mulher vem assumindo nos últimos anos.
Além da campanha que distribui gratuitamente preservativos nas UBS - que começou a partir de 1994 -, o médico e diretor do DUA Paulo Carlotto considera que as informações, hoje, geram maior transformação. "Houve mudanças no comportamento da sociedade em geral e, principalmente, no papel que a mulher desempenha hoje. Atualmente, as adolescentes conseguem vislumbrar oportunidades através da educação e do mercado de trabalho", pontua Carlotto.
Ele também aponta como fator para a diminuição atividades educativas e informativas voltadas aos adolescentes e jovens realizadas em parceria com a Secretaria de Educação e a Sebes, principalmente.

