Tribuna do Leitor

Amai os vossos inimigos

Hilário Nunes da Silva - espírita.
| Tempo de leitura: 3 min

Como a maioria dos seres humanos, sempre amei e admirei minha mãe, uma mulher simples com somente o 3º ano primário (como se dizia antigamente), quase sem cultura nenhuma, que para sobreviver vendia achas de lenha de sol a sol. Além de lavar e passar roupa para sustentar os sete filhos e ajudar meu pai, funcionário público, na labuta da vida. No entanto, era de uma inteligência, de uma sabedoria, de um conhecimento da vida que, infelizmente, bem depois da sua mudança para o plano espiritual pude saborear na sua plenitude.

Nos idos de 1975, eu estava cursando a quinta série do ensino fundamental, com meus 12 anos, e na minha classe tinha um menino bem maior que eu, e todo dia ele me dava uma reguada com o lado mais dolorido dela. Em um desses doloridos dias eu não aguentei e peguei a régua dele, quebrei-a em sua cabeça e o esmurrei várias vezes. Resultado: todo mundo para a diretoria e sabe o que aconteceu? Eu fui suspenso por uma semana e ele por dois dias! Perguntei ao diretor o porquê, e ele respondeu que "onde já se viu arrancar sangue de um menino por causa de uma simples reguada". Tentei argumentar dizendo que aquele fato se repetia praticamente todos os dias e naquele, em especial, tinha sido a gota d'agua. Mas foi em vão, e ainda fui para casa mais cedo, contei para o meu pai e apanhei de novo.

Fiquei com muito ódio daquele menino durante muitos anos, até que um dia contei para minha mãe a história, ainda carregado de rancor, fúria, irritação etc. Ela me olhou com aquele olhar tranquilo e calmo, característica de todas as mães. Pensou um pouco e me disse o seguinte: Meu filho ame esse rapaz da melhor maneira que você puder, reze para ele conseguir sucesso na vida, ser uma pessoa boa, honrada e feliz, que ele consiga ter tudo o que ele quiser material e espiritualmente.

Fiquei muito surpreso com a resposta dela, imagina que eu depois de ter levado várias reguadas na cabeça, depois de ter sido suspenso uma semana, apanhado do meu pai, ia querer o bem daquela pessoa? Perguntei então para minha mãe por que eu deveria perdoar, querer o seu bem, desejar-lhe o sucesso?

Porque, ela me disse, quando você perdoa uma pessoa e, veja, perdoar não é esquecer, você se liberta de todos esses sentimentos ruins, você fica mais leve e não terá um inimigo nesta ou em outras encarnações.

Disse ainda que não devemos brigar nunca porque quando a gente discute, quando a gente briga, nós nos rebaixamos para aquela pessoa, ficamos iguais a ela, e ficando menores, automaticamente nos inferiorizamos moralmente e isso é muito ruim, não se recupera facilmente, passam os anos décadas e a gente continua com aquele sentimento horroroso do ódio.

Em determinada data, estava eu a reler O evangelho segundo o espiritismo, quando no capítulo XII li o título que dá nome a este artigo... De imediato lembrei-me da minha mãe, que já naquela época sabia de tudo isso, e eu tive que aprender, evoluir com muito custo e estudo, entendi finalmente que perdoar não significa esquecer.

Sabemos que é muito difícil a luta, as tentações são grandes nesse mundo de provas e expiações, mas estamos fadados a evoluir!

Obrigado, dona Célia. Graças à senhora hoje tento ser melhor.

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