Tribuna do Leitor

A delação que passou do ponto

Carlos R. Ticiano
| Tempo de leitura: 2 min

Ostentando crachás de sócios majoritários do Brasil, os irmãos Wesley e Joesley Batista (até parece nome de dupla sertaneja), executivos do Grupo JBS e também presidente da J&F Investimentos, conseguiram, através de certas regalias, digamos um pouco condescendentes, articularem uma espontânea delação premiada ao estilo do agente secreto 007 (James Bond).

Em seguida, como celebridades do mundo artístico, saíram do País como quem sai de férias, imunes e orgulhosos pelo feito. Andando pelo aeroporto diante das câmeras com toda pompa, segurança e privacidade, só faltando um tapete vermelho e uma tarde de autógrafos.

Só que como o vento que sopra lá também sopra cá, o lobo mau que tanto atormentou os três porquinhos não teve dificuldades para derrubar a casa, digo, os depoimentos e gravações de Joesley Batista e de seu fiel escudeiro, Ricardo Saud. Infelizmente, digo, felizmente, todo trabalho projetado e executado em seus mínimos detalhes de forma ardilosa não resistiram por muito tempo.

A delação envolvendo milhares de políticos, partidos e até o presidente Michel Temer, revela a nós, simples mortais, que não podemos ignorar as revelações, as denúncias e as acusações mencionadas nos interrogatórios. Onde há fumaça com certeza há fogo.

Mas a coisa começou a desandar após aparecerem trechos da conversa em que Joesley Batista e Ricardo Saud se gloriam de serem pessoas acima da lei e da ordem. Chegando ao ponto de zombarem da seriedade dos órgãos do poder público e Judiciário, de tal modo a dizer com todas as letras que têm em suas mãos determinados ministros, senadores e deputados...

Se apartamento sendo usado como deposito de malas e caixas com R$ 51 Milhões (51, uma boa ideia!), se deputado saindo de pizzaria carregando mala com R$ 500 mil não são considerados delitos... Então, o que é isto? Em que circunstâncias vamos conseguir enquadrar essas pessoas e encarcerá-las de uma vez por todas?

Não é novidade para ninguém, afinal, o noticiário já divulgou várias vezes que o BNDES liberou créditos generosos ao Grupo JBS. Provavelmente de forma suspeita, pois é uma das principais doadoras de recursos para campanhas eleitorais no Brasil. Qual o critério que esta empresa pública federal usa para liberar estes empréstimos?

Que tem boi, para não dizer boiada, na linha, não resta nenhuma dúvida. Será que vamos ter cadeia para todo esse pessoal que intermediou, solicitou e forneceu todo tipo de propina? Inclusive para aqueles que posando de santinhos, tentaram se esquivar de seus pecados com depoimentos evasivos e novelescos!

Em resposta aos diálogos vazados, sem saber que acabaria preso, Joesley Batista pediu apenas desculpas pelo que foi dito, dizendo que aquela conversa não passou de um simples papo de botequim. Ou seja, "diga-me com quem andas e eu te direi quem és"!

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