| Samantha Ciuffa |
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| Márcio Fernando Elias Rosa, nessa sexta (29), na biblioteca da unidade Nelson Mandela, ao lado do diretor da unidade, Ronaldo Pinheiro da Silveira |
| Márcio Fernando Elias Rosa é secretário estadual de Justiça e de Defesa da Cidadania e presidente da Fundação Casa no Estado |
Do total de 181 adolescentes que cumprem medida socioeducativa nas três unidades da Fundação Casa de Bauru, 59% são por tráfico de drogas. Questionado sobre a necessidade de políticas públicas mais eficazes para reverter o quadro, o secretário estadual de Justiça e de Defesa da Cidadania e presidente da Fundação Casa no Estado, Márcio Fernando Elias Rosa, destaca que o assunto precisa ser repensado. "Um modelo que não deu certo foi declarar guerra às drogas. O Brasil não sabe resolver esse problema. Temos uma baixa fiscalização e índice muito elevado de tráfico de entorpecente", criticou.
O secretário, que esteve ontem em Bauru para visitar as unidades Casa Bauru, Casa Nelson Mandela (ambas de regime fechado) e Casa de Semiliberdade, pondera que, no caso de adolescentes, o tráfico é praticado em pequena quantidade, muitas vezes para financiar o próprio consumo.
Após a comercialização de drogas, vem o roubo como segunda maior causa de internação: 29% dos casos nas três unidades bauruenses. "Muito se fala em violência infanto-juvenil ou envolvimento do adolescente no crime organizado, mas as estatísticas da Fundação Casa desmentem isso. Quase sempre, eles praticam roubo em pequena quantidade para financiar as drogas, que são adquiridas também em pequena quantidade".
Discussão polêmica no País, a redução da maioridade é vista por Elias Rosa como uma medida desnecessária. "Eu sou contrário, porque a idade não é fator de criminalidade e nem de violência. A lei penal por si só não é um fator que gera segurança. Talvez ela gere uma sensação de segurança nas pessoas, mas redução da criminalidade, não", opina.
ROMPER ESTIGMAS
O maior desafio da Fundação Casa é romper os estigmas de que a instituição ainda carrega. "A coisa mais difícil é conseguir a integração com a sociedade e reduzir o preconceito. Nós temos uma taxa de reincidência inferior a 20%. Homicídio não chega a 1% e latrocínio, em torno de 0,5%. Mas, no imaginário de grande parte da população, aqui estão pessoas perigosíssimas".
O objetivo é trabalhar para que a sociedade reconheça que a Casa é um ambiente de educação e de reeducação. "Como esse preconceito se manifesta? Muitas vezes, não dando oportunidades pós-cumprimento da medida e não oferecendo emprego, imaginando que o egresso é incorrigível".
Interno quer usar canal de vídeos para tirar outros jovens do ‘mau caminho’
| Samantha Ciuffa |
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| Interno quer que a família unida volte a ser sua realidade, e não apenas a arte na parede da unidade |
"Minha mãe sempre falava para eu tomar cuidado com as amizades porque algumas poderiam me levar pro mau caminho, mas eu nunca dei ouvidos a ela". A declaração é de um dos internos da Fundação Casa Nelson Mandela de Bauru. Ele tem 16 anos e foi aprendido por tráfico de drogas, há 6 meses (a identidade foi preservada em respeito ao ECA).
"Quando você passa dessas grades pra dentro, a sensação é muito ruim, como se tivesse perdido a sua vida. Minha família mora longe (ele veio do Estado da Paraíba para morar com o pai em Duartina). Aqui, só tenho meu pai. Minha mãe sempre chora quando ligo pra ela e diz que está com saudade", lamenta.
O adolescente afirma que aprendeu a lição. "Minha personalidade mudou. Aquela pessoa que se envolveu com drogas hoje não existe mais. Eu fazia as coisas e me arrependia depois. Agora, penso primeiro antes de fazer", revela.
VEIA ARTÍSTICA
Comunicativo, o jovem diz ter uma veia artística voltada para o teatro. "Começou por causa do meu pai. Ele interage e conversa bem. Eu costumo contar histórias da minha vida e uns amigos me incentivaram a [antes de ser recolhido à Fundação Casa] a abrir um canal no Youtube, que tinha mais de 600 acessos".
Agora, assim que acabar de cumprir a medida, ele pretende usar a ferramenta para conscientizar os jovens a não entrarem no caminho das drogas. "Eu tirava as partes ruins e deixava só as boas quando contava as histórias da minha vida. Vou alterar isso. Quero mostrar meus erros para tentar sensibilizar as pessoas. Quando eu sair daqui, sei que vou mudar de vida, mas nem todos pensam assim", justifica.

