| Samantha Ciuffa |
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| Centro de Especialidades Odontológicas funciona na quadra 16 da rua Antônio Alves, desde 2011 |
Hoje, 1.410 pessoas em Bauru aguardam a chance de voltar a sorrir sem constrangimento, de voltar a mastigar bem e, assim, ter mais dignidade. Este é o número de moradores da cidade que estão na fila de espera por uma prótese dentária - parcial ou total - no Centro de Especialidades Odontológicas (CEO).
Elas aguardam agendamento para atendimento no local após recomendação de dentistas que as atenderam nas unidades básicas de saúde do município. O serviço funciona em um laboratório terceirizado, contratado pela prefeitura por meio de convênio com o governo federal, dentro da Política Nacional de Saúde Bucal (PNSB), conhecida como Brasil Sorridente.
Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde, que consultou Nildiceli Leite Melo Zanella, chefe da seção de odontologia, e Paulo Carlotto, diretor de unidades ambulatoriais, o expressivo número de pessoas na fila de espera está relacionado à proporção entre oferta de vagas e demanda de pacientes. "Os adultos e idosos trazem marcas de uma época em que a cárie e a doença periodontal (que afeta a gengiva, por exemplo) traziam como consequência a mutilação dentária, o que se traduz numa realidade de necessidade acumulada", explica, salientando que o CEO é o único serviço em Bauru que oferece a confecção de prótese de forma gratuita à população.
"Sempre que há perda dentária, há a necessidade de reposição, a fim de evitar danos fisiológicos, anatômicos e estéticos, aspectos que interferem na qualidade de vida", acrescenta.
Por meio da assessoria, Nildiceli e Carlotto detalham que a pactuação junto ao Ministério da Saúde foi feita em dezembro de 2010, dentro da faixa de produção que o município tinha capacidade financeira para cumprir - de 50 próteses ao mês. Para tanto, o governo federal vem garantindo um repasse anual de R$ 90 mil e o município, de R$ 109.539,42.
"Os agendamentos foram iniciados em 2011. Assim, estamos atendendo uma demanda que já estava sem o acesso há anos", acrescenta o texto enviado pela assessoria. Antes da assinatura do convênio com o governo federal, contudo, o CEO já funcionava desde fevereiro de 2007 na Universidade do Sagrado Coração (USC), passando para a sede atual, na quadra 16 da rua Antônio Alves, em maio de 2011. Para a manutenção também de outros serviços, como os atendimentos em endodontia (como tratamento de canal) e periodontia (gengiva e ossos, por exemplo), o repasse federal total, hoje, chega a R$ 380,4 mil anuais.
AMPLIAÇÃO
Membro do Conselho Municipal de Saúde, Rose Lopes avalia que a pactuação de 50 próteses é insuficiente para reduzir a fila de espera em um município do porte de Bauru, lembrando que um mesmo paciente pode demandar duas peças, como são os casos das próteses totais. Como medida para sanar este déficit, ela defende a retomada de convênios com universidades, com a utilização de mão de obra de alunos supervisionados por professores.
"Tem paciente esperando há cinco anos, sem outra alternativa, porque não tem dinheiro suficiente para pagar um serviço particular. Tem também aqueles que desistem e acabam procurando clínicas populares para parcelar, com sacrifício, o custo do tratamento", reclama ela, que também é coordenadora do Conselho Gestor do Pronto-Socorro Central (PSC).
O tempo médio de espera atual para atendimento não foi informado pela Secretaria de Saúde, sob o argumento de que os prazos variam de acordo com a urgência de cada caso. A pasta garante que possui interesse em iniciar tratativas para estabelecer parcerias com instituições de ensino, mas não antecipou prazos.
ESTRUTURA
O CEO de Bauru conta, hoje, com 20 profissionais, sendo dez cirurgiões dentistas. Para o acesso ao serviço, a porta de entrada são as unidades básicas de saúde. Nelas, o dentista presta a primeira assistência e solicita a radiografia panorâmica no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/USP), o Centrinho, que mantém parceria com o município.
Em seguida, o paciente é encaminhado ao CEO, quando o atendimento clínico e laboratorial é realizado e concluído com a confecção e instalação da prótese. Para Rose Lopes, a burocracia existente para o cumprimento de todas as etapas dificulta, ainda mais, as chances de uma pessoa de baixa renda ter acesso à peça dentro de um prazo minimamente satisfatório.
"Não há um protocolo de atendimento rápido em odontologia em Bauru. Os postos de saúde não têm raio-X, então, só pra fazer a panorâmica, vai demorar 15 dias, 20 dias, um mês. Depois, o paciente tem que voltar ao posto de saúde para avaliação e encaminhamento para entrar na fila de espera do CEO, sem saber quando será atendido", reclama.
A Secretaria de Saúde alega, por sua vez, que o encaminhamento do paciente segue "protocolo estabelecido pela equipe do CEO, com referência do Ministério da Saúde".
SEM SAIR DE CASA
A impossibilidade de sorrir em público ou de degustar qualquer coisa fora de casa por conta da ausência de parte dos dentes resultou em depressão para uma auxiliar de serviços gerais ouvida pela reportagem. Por conta do contexto, ela pediu para ter o nome preservado.
Aos 48 anos, não faltavam convites de amigos e parentes para festas mas, por conta do constrangimento, eram todos negados. A reclusão forçada resultou em tristeza profunda que, inclusive, impactou em seu desempenho no mercado de trabalho, há dois anos.
Por sorte, um irmão muito próximo percebeu a situação e mobilizou toda a família. Cada qual, mesmo em face das dificuldades econômicas, tentou encontrar alternativas para resolver o problema. "As filas eram enormes. Não podíamos esperar tanto", comenta ele.
O jeito foi fazer uma 'vaquinha' e pagar. Atualmente, a auxiliar de serviços gerais já não para em casa por conta de tanta programação. Admite que, em breve, poderá até engatar um namoro. É só sorrisos.
