| Fotos: Malavolta Jr |
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| Raquel Alves ministrou palestra ontem no Centrinho sobre como superou e lidou com a fissura |
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| Mariane Goes (Smile Train), Raquel Alves e Maria Aparecida Moreira Machado (Centrinho) |
Em um período de intolerância que resulta em atos de preconceito nas mais diversas áreas, as pessoas precisam estar preparadas para lidar com essa dificuldade no dia a dia. Filha do escritor Rubem Alves, Raquel Alves, que nasceu com fissura labiopalatina e foi paciente do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/USP), o Centrinho, passou por essa situação e foi, ainda criança, orientada a lidar com ela. "Quando alguém te olhar diferente, apresente-se".
O ensinamento vem do próprio pai de Raquel, que morreu em 2014. Ela contou o episódio nessa terça-feira (3), durante visita ao Centrinho, onde ocorre, desde segunda-feira, uma força-tarefa para zerar a fila de pacientes do Estado de São Paulo para cirurgias primárias de lábio e palato.
Na ocasião, Raquel ministrou uma palestra aos pais e pacientes sobre como superou e lidou com o problema. Durante o evento, também foram distribuídos aos participantes exemplares do livro "Como Nasceu a Alegria", que Rubem Alves escreveu para a filha. A história fala de uma flor que nasceu com uma pétala partida. A obra, inclusive, conta, de uma forma lúdica, a história de quando Raquel teve de lidar, ainda na infância, com o preconceito.
"Eu tinha uns 5 ou 6 anos. Me lembro de estar no mercado com meu pai e uma menina começou a me olhar diferente. Fiquei muito acuada e falei: 'Papai, aquela menina está me olhando de um jeito estranho'", lembra ela, relatando que o pai a questionou sobre o motivo daquela situação.
"Eu respondi: 'Acho que eu sou meio esquisita'. Foi quando ele (Rubem Alves) olhou pra mim e disse: 'Vou ensinar um truque. 'Quando uma pessoa te olhar diferente, você abana a mão pra ela e se apresenta'. Meu pai deixou sob a minha responsabilidade conquistar ou não aquela menina".
Ela destaca que sempre recebeu apoio dos pais, mas que também foi incentivada a tomar a frente da situação e aprender a tomar as decisões por conta própria. "A gente convive com aquilo que tem que conviver. Hoje, eu sou forte porque meu pai me obrigou a enfrentar o problema de frente. Do contrário, provavelmente eu seria uma pessoa mais acuada", diz.
'PRECONCEITO ACONTECE'
"No começo, o sentimento é de incômodo porque muita gente fica olhando de uma forma estranha ou até maldosa. O preconceito acontece de todo jeito possível. Depois, com o tempo, você aprende a enfrentá-lo e lidar com a situação. Mas não é fácil".
O desabado é da dona de casa Ana Claudia Morales Finatto Amaral, 33 anos, de São José do Rio Preto. Ontem, ela trouxe o filho Bento, de 1 ano, na força-tarefa do Centrinho. O menino nasceu com síndrome de Pierre Robin (uma doença rara que se caracteriza por anomalias faciais como mandíbula diminuída, queda da língua para a garganta) e fissura no palato.
Ao lado do marido, o comerciante Rafael Finatto Amaral, 34, ela aguardava o término da cirurgia do filho, em uma sala adaptada pelo Centrinho para acolher os familiares de pacientes durante o procedimento cirúrgico. Com atividades como artesanato, ela tentava aliviar a ansiedade da espera. "Está difícil ficar calma, mas vai dar tudo certo", disse.
'FOI UM GRANDE ALÍVIO'
A força-tarefa realizada nesta semana no Centrinho para zerar a fila de espera no Estado veio em boa hora, comemora a assistente de comércio exterior Alana Araújo Arantes, 29 anos. Nessa terça-feira (3), ela trouxe o filho Benício de três meses a Bauru, que nasceu com fissura no lábio. “Foi um grande alívio, pois o primeiro procedimento cirúrgico dele estava marcado só para o ano que vem”, disse, enquanto esperava o bebê entrar na sala de cirurgia.
| Malavolta Jr. |
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| Ricardo com o filho Benício, de 3 meses, e a esposa Alana |
Campanha deve zerar fila de espera
Desde segunda-feira, ocorre uma força-tarefa no Centrinho, com objetivo de zerar a fila de pacientes do Estado para cirurgias primárias de lábio e palato. Com o reforço de um anestesiologista voluntário da ONG Smile Train, parceira da instituição, serão realizadas 75 cirurgias até sexta-feira.
A ação integra a 1.ª Semana de Fissura da América do Sul e a 3.ª Campanha Nacional de Fissura Labiopalatina, promovida pela entidade filantrópica em parceria com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e Fundação IDEAH.
"Essa parceria já refletiu o que estamos vendo essa semana: todas as nossas seis salas cirúrgicas operando", comenta a superintendente do Centrinho, a professora Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado.
Ela destaca que estão previstos novos mutirões. "O próximo atenderá a região Sudeste, no Estado de Minas Gerais. Estamos, ainda, em contato com uma fundação de um grande banco para investimentos em benefícios como o que oferecemos", adianta.
"Trata-se, também, de uma campanha nacional, com objetivo de conscientizar toda a população do Brasil de que existe tratamento para essa anomalia, gratuito e realizado em centros de excelência", acrescenta a diretora da Smile Train na América do Sul, Mariane Goes.
Conforme o JC noticiou, o HRAC/USP firmou parceria com a ONG neste ano, com o objetivo de preservar a qualidade do atendimento e de trazer soluções às demandas do hospital. Com o convênio, a Smile Train passou a receber doação de US$ 250,00 da organização por cirurgia de fissura labiopalatina realizada.


