O conhecido Memorando Summers, escrito alguns anos atrás pelo economista chefe do Banco Mundial, acabou com a divisão conhecida entre os países: os desenvolvidos, os em desenvolvimento e os subdesenvolvidos. Criou mais uma categoria, a dos países criativos ou países do primeiríssimo mundo, países que expurgaram do seu território os ramos industriais mais danosos ao meio ambiente.
Tudo o concebido nestes países criativos, com destaque para os Estados Unidos, seria fabricado e montado em algum país longe dali e de preferência onde a mão-de-obra é barata.
Referido memorando afirma, em primeiro que, o meio ambiente é apenas uma preocupação estética que não deve preocupar os países mais ricos. Em segundo, diz que a maioria das pessoas nos países mais pobres, não vive tempo suficiente para sofrer os efeitos da poluição ambiental, além de considerar que, muitos países estariam subpoluídos.
Em terceiro, pela lógica econômica, o memorando considera que as mortes em países pobres têm um custo mais baixo do que nos países ricos, pois, seus moradores recebem salários mais baixos e não tem tantos encargos trabalhistas.
A lógica por trás dessa intenção é a de que, ao destinar sistematicamente os danos ambientais aos países, regiões e grupos sociais mais pobres, o mercado elevaria a eficiência global do sistema capitalista e faria com que, em algum ponto no futuro, tecnologias mais limpas viessem a beneficiar, também, os mais pobres. Sem dúvida, um raciocínio simplista porque é possível constatar que os danos ambientais não são distribuídos por igual, recaem mais e de forma irreversível, sobre os países mais pobres, exatamente onde a população mais cresce.
Por conta do estabelecido no Memorando Summers, a China é um dos países que cresceu às custas da industrialização e em decorrência, aumentou seu peso sobre os ecossistemas mundiais, especialmente pela necessidade imperiosa de importação de matérias-primas. Só para citar um exemplo, a China se tornou o maior importador mundial de soja e isso nos afeta já que a expansão dessa cultura contribui para o desmatamento da floresta amazônica.
Essa excessiva concentração industrial na China e seu crescimento desenfreado, causou efeitos perversos também em seu próprio quintal: na redução das terras aráveis em prol da urbanização; no crescimento da desertificação; nas constantes tempestades de areia e no fato de que quase um quarto da população bebe água poluída e respira um ar saturado em dióxido de enxofre. A China tem dezenas de "vilarejos do câncer", cercados de fábricas do setor químico que, sem nenhum pudor, liberam poluentes no ar e na água, provocando doenças graves em seus vizinhos, totalmente impotentes.
Tudo isso decorre de um sistema que é dirigido por uma camada dominante que só se move por avidez, que não tem outro ideal a não ser o conservadorismo, nem outro sonho que não seja a tecnologia. Essa oligarquia predadora é o principal agente da crise global. O acesso desigual ao meio ambiente expressa-se na extrema concentração de bens em poucas mãos: estima-se que 20% da população mundial consomem entre 70 e 80% dos recursos do mundo. Portanto, um pequeno segmento social está atrelado a altos padrões de consumo e pressionando, sempre, por uma apropriação cada vez mais intensiva e pouco previdente dos recursos naturais. A desigualdade social está na raiz da degradação ambiental.
Assim como a pobreza não é um estado, mas um efeito, fruto de um processo social determinado, do mesmo modo, a desigualdade ambiental nada mais é do que a distribuição desigual das partes de um ambiente injustamente dividido.
O autor é prof. titular aposentado do Depto. de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp Bauru.