Toda casa é casca. Toda casa é proteção. É ninho sem o qual nenhuma história acontece. O útero, por exemplo, é a casa da semente; a toca é a segurança do bicho; a casa da camisa é o destino do botão. A caserna é a casa dos soldados com suas armas e botas lustradas. Quem casa, diz o provérbio, quer casa, a da sogra não. Casa, casebre, cas(a)telo, mansão, pouco importa o preço, o lugar, a condição. Toda casa é diferente, raiz e tronco. Toda casa é um pedaço da gente.
Nossa primeira casa, uma barriga redonda. Nela, acolhimento de mãe, alimento, sono profundo, a quase inconsciência de tudo. Vencido esse tempo de carinho, somos obrigados a deixar essa concha de proteção. Do lado de fora, a nossa história precisa continuar.
Nossa segunda casa, a velha e inesquecível casa dos nossos pais. Que casa! Por ela, choramos de saudade. Na casa dos nossos pais, estávamos nós, crianças que éramos. Conosco, os nossos irmãos, avós, tios, primos... Havia quintal, jabuticabeiras, cachorros, passarinhos, cercas de ripas, vizinhos, almoços, domingos, refrigerantes, aniversários, natais... Havia mesinha de tarefa e desenho colorido nos azulejos da cozinha. Vivíamos em família. Carinhos, broncas, beijos, safanões, o que fizéssemos por merecer. Com a molecada, lá me vejo, menino, subindo mangueiras.
Cordas amarradas nos galhos eram cipós. Deles despencávamos sem medo. Éramos Tarzans. Ainda sinto o gosto roxo das amoras manchando-me a boca. Lembro-me precocemente professor. Carvão riscando a parede, era assim que eu dava aulas de francês à minha irmãzinha. Coitada, a Soninha não conhecia nem a letra "a". "Sur le chemin de l école", era a lição.
Nossa terceira casa, finalmente a nossa própria casa. Hora e vez de sermos pais, hora de os filhos criarmos. Éramos jovens, apaixonados, muitos projetos. Num mundo de alegria tão escancarada, impossível descrever a chegada de cada filho. Nossa família aumentava porque o futuro, de chupeta, engatinhava pelos corredores. A quarta casa, a casa dos nossos filhos. Era a vez de as nossas crianças serem pais e nós, avós. Nossos filhos começavam a difícil luta, projetos, expectativas. Com muita torcida, acompanhávamos-lhes cada conquista. Netos chegando, pura emoção.
Agora sei que tudo passou. Culpa da vida que gosta de mudança e de caminhão. Ficamos velhos, sozinhos em casa menor. Neste momento, estou numa sala vazia e leio Álvaro de Campos: "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto". Depois: "O que sou hoje é terem vendido a casa, é terem morrido todos, é estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio..."
Não gosto de falar dela, mas a derradeira casa será a nossa morada final. Chorar o que passou? Nada adianta. O tempo muito tira, mas também muito nos dá. Mudam-se os endereços para que, em novas casas, possam nascer netos tão amados. Nada apaga, porém, a poesia de tudo que no tempo ficou. Toda casa é casca. Toda casa é proteção. Toda casa é ninho sem o qual não se poderia voar.
O autor é professor de redação e membro da Acade mia Bauruense de Letras - curso-romag@uol.com.br