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Gravata perigosa

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Shopping. Eu precisava de camisa e gravata. Casamento de uma sobrinha. Derramando simpatia num sorriso bem treinado, a vendedora indagou em que me poderia ser útil. Achei a pergunta da moça um tanto descabida, eu só queria camisa e gravata. Exagero. Por que as pessoas perdem a medida no que falam? Depois, pensando melhor, perdoei a moça, mas não me perdoei: mania birrenta essa minha de ficar interpretando literalmente tudo o que as pessoas dizem. Cara chato, azedo!

Então, melhorei a cara e procurei ser simpático: "Sabe o que é, moça, estou atrás de uma camisa social e de uma gravata, poderia ser listrada, sabe, moça, sou apaixonado por tudo que é listrado, tenho, no começo do mês, um casamento de uma sobrinha, que é um doce de pessoa, um encanto, aliás ela tem um nome lindo de lua, Luana, ela é médica dermatologista recém formada, mora em Rio Preto, mas, depois do casamento, vai morar em Campinas ou em Jundiaí, não sei bem... Falei e logo me caiu a ficha: além de chato e azedo, eu era um poço de incoerência. Mais descabida do que a pergunta dela, tinha sido a minha resposta centopeica. Tinha ido muito além do que era necessário dizer àquela moça que apenas me queria ser útil. Ou servir-me, sei lá. Paguei a boca. Aquilo que na linguagem dela eu criticava, existia na minha com muito mais letras, vírgulas e pernas.

Sempre sorrindo, ela foi derrubando sobre a banca camisas de vários tons e muitas gravatas. Nenhuma listrada. Escolhi uma camisa rosa e uma gravata rosa. Tentei ir ao provador. Tentativa frustrada. Ela fechou a minha frente e, com a cara mais fechada ainda, arrancou-me a gravata da mão. "Esta não combina, meu senhor! Rosa com rosa não combina!" Envergonhado, eu era um aluninho safado pego com a cola na mão. "Tem que ser rosa com preto, rosa com verde, rosa com amarelo, com azul, mas rosa com rosa não combina não, seu idiota! "Idiota", claro, ela não disse, mas eu ouvi.

Primeiro, respirei. Depois, coloquei na minha cara o meu mais largo e planejado sorriso - também tenho o meu e o levo sempre no bolso, nunca se sabe... Então lhe agradeci a eficiência do atendimento. Era muito bom contar com vendedora tão gentil e competente na arte de combinar cores, foi o que eu lhe disse, sorrindo. Envaidecida, ela também me sorriu. Acrescentei que, graças a ela, eu já tinha certeza do que comprar: "Vou levar exatamente essa camisa rosa e essa gravata rosa, que não combinam. Combinado?"

Rosa com rosa?! Ela sorriu amarelo na certeza de que eu estava brincando. Não estava. E para não deixar dúvida, comecei a olhar o teto e a assoviar uma longa música nenhuma. Foi então que ela, fechando o sorriso bem treinado, me fuzilou com um olhar terrivelmente verdadeiro. O senhor pode dividir em até três, quer CPF na nota? Nervosa, foi empacotando tudo com muita pressa e barulho nas mãos. Se quiser trocar tem sete dias, mas tem que trazer a nota e não arranque a etiqueta... E com um falso "volte sempre" despediu-me sem disfarçar o intenso desejo de arrancar a minha jugular. Aliás, é exatamente com esse ódio que os donos das cores, quando contrariados, reagem. Não suportam nada que esteja fora da heterocromia combinada. Que o rosa procure o verde , o azul, o amarelo, quem ele quiser, mas rosa com rosa nunca! E azul com azul nem pensar!

Saí da loja triunfante. Eu estava orgulhoso de mim, e mais assoviante ainda. Tinha ganhado o dia. Afinal, muito melhor do que decretar quem combina com quem, é saber se defender dessas pessoas que, num simples laço de gravata, querem enforcar a liberdade da gente.

Estava feliz, tinha tirado o pescoço da reta.

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br

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