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Entrevista da Semana: Nilce Cavanesi

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

Malavolta Jr.
Lar Escola mudou a trajetória de Nilce Capasso Canavesi 

Existe um provérbio bíblico que diz algo mais ou menos assim: "reveste-se de força e dignidade; sorri diante do futuro, fala com sabedoria e ensina com amor". Pois é exatamente essa força, além de otimismo, que Nilce Regina Capasso Canavesi, a diretora do Lar Escola Santa Luzia para Cegos, passa ao ser entrevistada. O amor também está na ordem do dia para ela, uma mulher que fez do voluntariado a sua vida e que sentencia: "é preciso aproximar mais as pessoas. Hoje, o próximo está cada vez mais distante. Eu acredito que só há um binômio para a salvação de muitas vidas, para a transformação de outras: o amor e a educação".

Jornal da Cidade - Você tem uma bagagem muito forte. São quase 37 anos dedicados a uma única instituição: o Lar Escola Santa Luzia para Cegos, onde por sinal sempre foi voluntária.

Nilce Canavesi - Sim, é um trabalho 100% voluntário. Não ganho nada. Aliás, ganho sim, engana-se quem pensa que ajudar aos outros é benefício alheio. Quando se ajuda alguém, a gente é que é ajudada.

JC - E você faz com prazer até hoje...

Nilce - É ótimo vê-los todos bem, alto-astral, legais, passando por cima dos problemas. Quando a gente chega, já vão falando: "bom dia, como você está bonita, hoje". Não é demais?! Isso dá um ânimo danado na gente. E, de certa forma, eles enxergam mesmo...

JC - Como assim?

Nilce - Eles fazem de tudo, não há deficiência, não. Cada um no seu tempo, claro, aprende a lidar com a situação. Só precisa de ajuda e oportunidade. E nosso trabalho é oferecer oportunidades. Dá para imaginar um cego atravessando sozinho a avenida Castelo Branco? Pois isso acontece. Graças à ação social, reabilitação, ao treinamento: essa independência foi conseguida. Então, pelo cheiro, pelo tato, eles enxergam tudo. Um deles um dia cortou a mão e daí sim ele falou: "agora estou de fato cego, sem poder tocar não sou nada".

JC - Eles olham com os olhos do coração, como você costuma dizer...

Nilce - Sim. Cantam, dançam, tocam instrumentos. Temos o coral. O maestro, que é voluntário, vem de Jaú. Temos um grupo de teatro. E até mesmo os funcionários. Temos 15 pessoas: professores, terapeuta ocupacional e desses 15, três são deficientes visuais. São todos ótimos, pessoas muito competentes e responsáveis.

JC - Como começou sua história com o Lar Escola Santa Luzia?

Nilce - Um amigo, Vicente Mandaliti Júnior, me convidou a conhecer a entidade. O Lar era na rua Gérson França, onde hoje é o escritório. Aceitei e fui. Gostei tanto que, no mesmo dia, eu sabia que tinha que fazer alguma coisa por eles, ajudar. Eu me voluntariei no dia seguinte e, desde então, já se passaram 36 anos.

JC - O que exatamente a atraiu?

Nilce - Abriu-se um novo mundo em minha cabeça. Vi pessoas fortes demais na minha frente. Eles não se queixavam. Ao contrário, mostravam garra, determinação e queriam fazer algo, trabalhar. E naqueles tempos, o atendimento a eles era muito precário. Ajudou a sintonia dos trabalhos manuais.

JC - Sintonia?

Nilce - Sim, eu adoro tudo o que é para mexer com as mãos. Culinária, crochê, tricô, artesanato de todo o tipo trama de fios (o macramê), enfim, habilidades manuais são comigo mesmo. E quando cheguei, tinha isso lá no Lar e também havia - como existe até hoje - a oficina de empalhamento. Os usuários do local fazem o conserto de cadeiras de palha. Eles são muito habilidosos.

JC - E como conciliava todos os afazeres de sua vida assistencial com a pessoal?

Nilce - Bom, meu marido, o Luiz era funcionário da então Clark em Pederneiras. Ficou lá até se aposentar recentemente pela Volvo, de forma que só voltava à tarde. Isso facilitou um pouco. Tinha tempo e disponibilidade.

JC - E ele nunca implicou de você se dedicar tanto ao Lar?

Nilce - Nada disso, ao contrário. Sempre foi o maior incentivador e, sempre que podia, participava comigo das atividades. Claro que com a filha complicou um pouco. Várias vezes ela ia comigo até lá, mas sempre demos um jeito. A Bethania cresceu, se casou, acabou me dando um neto maravilhoso. Hoje eles moram em Miami por causa do trabalho do genro. Ela também está desenvolvendo seu trabalho lá. É design e fotógrafa.

JC - Daí você foi, viu e pegou gosto pela causa.

Nilce - Teve duas ajudas muito importantes naquela época. A primeira da minha família: meus pais me incentivaram. Aliás, meu pai, o Lino Capasso, foi um homem à frente do seu tempo. Ele chegava do trabalho nos finais de semana e falava para mim e minhas irmãs - sou a mais nova de quatro filhas: "o que vocês estão fazendo aqui em casa? Vão passear, sair, se divertir. Aproveitem a vida" ensinava ele.

JC - E o outro incentivo, à época?

Nilce - Foi do então diretor o Aldire Guedes, o lendário fotógrafo bauruense. Seu Aldire prestou atenção em mim e foi me dando cada vez mais responsabilidades dentro da entidade. Vi sua luta. Me lembro bem. Ele chegava e juntava a turminha: os 15 assistidos. Lia para eles romances espíritas, obras de cunho espiritual e humano muito importantes, mostrava valores éticos. Coisa mais linda.

JC - Hoje mudou muito, né?

Nilce - Pois é. O leque se abriu, a informatização está aí. Os alunos são treinados para usar o computador e um sistema de voz fala o que está na tela. Eles ouvem e se informam de tudo. Isso é maravilhoso. Há tanta coisa que pode ser feita. Hoje estamos no limite da capacidade: são 75. Se houver mais voluntários, será ótimo porque temos fila de espera para a escola.

JC - O que deseja para o Lar Escola no futuro?

Nilce - Que as pessoas acordem para a nossa causa. Temos muito mais gente para atender e não temos como. E não adianta esperar tudo do poder público. Aliás, o Aldire Guedes já falava isso, logo quando eu cheguei: "faça tudo para não depender do governo". Então nós dependemos do voluntariado. Gostaria que cada bauruense fosse mais "mão aberta" doando um pouco mais para a entidade. Por pouco que seja sempre é muito importante para nós. Temos quem vá buscar a doação, somos uma entidade constituída, damos recibo para abater no Imposto de Renda. Então é esse meu desejo: mais voluntários. A propósito: desejo também que acabem as pessoas safadas que se passam pela gente.

JC - Como assim?

Nilce - Pois é. Preciso usar este espaço para alertar: não é que existe um cara dando golpe na praça em nosso nome? Fala que é para a gente e recolhe o dinheiro. A polícia até está investigando. É preciso se precaver... entre em contato direto com a entidade, comigo. Usem meus e-mails.

JC - E você, o que espera do seu futuro?

Nilce - Saúde. Isso é o mais importante. Quero também estar bem, com qualidade de vida, para ver meu neto crescer.

PERFIL

Aos 60 anos, Nilce Regina Capasso Canavesi, do signo de Virgem, se diz bem chata quando à organização - característica do signo - por querer tudo certo, ser meticulosa. E valoriza a própria culinária. Manda bem em tortas que são muito elogiadas. Deixou para trás o sonho de ser médica, quando teve consciência de que não iria conseguir sair de Bauru e cursar a faculdade que, além de cara, exigiria partir da cidade. Mas não se arrepende. Está muito feliz com o rumo que a vida tomou e mais ainda agora com o neto Nicolas: "Neto é assim: deixa a nossa vida a mil e a gente vira boba deles". Confessa que graças a ele está se tornando uma mulher informatiza, tem Facebook, Whats e muito mais para vencer a distância. Faz um pedido: a entidade precisa de mais colaboradores. Seja doando em tempo ou mesmo em dinheiro. "Não taxamos um valor fixo, o que conta é a doação. Dependemos muito dos clubes de serviço, dos eventos e doações. Não precisa de muito sacrifício. Quem é cabeleireiro pode contribuir com uma repaginada no visual dos alunos e, assim por diante, todo mundo tem algo para doar. E agradece, especialmente a Bauru, além da família. Dá para a população que é muito solidária nota 10. Quer ajudar? Entre em contato com ela pelos emails: nilcecanavesi@gmail.com ou larsantaluzia@hotmail.com

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