Tribuna do Leitor

Racismo e consciência

Pedro Valentim
| Tempo de leitura: 4 min

Além dos diversos problemas sociais conhecidos como resultado do racismo, ele também pode afetar a saúde. Vários estudos apontam que o preconceito racial está conectado a doenças cardiovasculares em negros, além de ser a possível causa da depressão, da ansiedade e de outros problemas de saúde em pessoas que são vítimas de racismo. Alguns estudos científicos evidenciam que esses problemas podem surgir como resultado de uma vida sob o estresse de conviver com a discriminação racial.

Um estudo americano feito pela Universidade de Harvard mostra que indivíduos que são discriminados pela sua cor têm mais chances de ter falência renal. Os pesquisadores estudaram 1.574 moradores da cidade de Baltimore, nos EUA, durante cinco anos. Desse total, 20% dizem sofrer muito com o racismo e têm maior pressão arterial do que aqueles que afirmam sofrer menos. E no Brasil a situação não é diferente.

Em entrevista para o jornal Folha de São Paulo, o Núcleo Negro da USP contra a discriminação racial citou que a liberação de hormônios do estresse pode levar a um aumento na pressão arterial. Uma das principais causas da falência renal é a elevada pressão arterial. Portanto, a maioria dos negros sofre de pressão alta não é porque tem sangue grosso, como afirma o mito popular, e sim por causa do racismo.

Os negros brasileiros sofrem três vezes mais de insuficiência renal do que os brancos. Além disso, constituem mais de 35% de todos os pacientes em diálise por insuficiência renal no Brasil, citou uma pesquisa realizada pelo Geledes e a revista Raça aqui no Brasil.

Um estudo publicado no jornal da Associação Americana de Saúde Pública mostra que a discriminação racial está ligada a taxas elevadas de hipertensão. Os pesquisadores examinaram quase cinco mil voluntários negros com idades entre 35 e 84 anos, que sofreram ou sofrem com racismo. Eles descobriram que 64% das mulheres e 59,7% dos homens tinham hipertensão. Vale ressaltar que, para chegar a esse resultado, o nível socioeconômico dos voluntários foi adicionado à conta. Ou seja, as taxas de hipertensão continuaram maiores entre os negros americanos e brasileiros.

O racismo ainda pode levar à depressão e causar outras doenças mentais. Em um estudo feito na Holanda, 4.800 pessoas foram divididas em dois grupos: um com indivíduos que sofreram com discriminação racial e outro que não. Ambos testaram negativo em exames relacionados a traços paranoides e doenças mentais. No entanto, os pesquisadores descobriram que as pessoas que foram discriminadas eram duas vezes mais propensas a desenvolver sintomas psicóticos nos próximos três anos. Já imaginaram aqui no Brasil?

Outra pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro revelou que o racismo também está conectado com sintomas graves de estresse pós-traumático. Os pesquisadores analisaram 408 voluntários e notaram que negros que foram discriminados racialmente ou testemunharam atos racistas tinham sintomas mais graves de estresse pós-traumático do que outros grupos étnicos.

O negro brasileiro, além de sofrer o racismo nas ruas, também é discriminado no sistema público de saúde. O próprio Ministério da Saúde lançou em 2013 a Campanha "Não fique em silêncio. Racismo faz mal à saúde", em que reconhece que o racismo é um determinante social em saúde. De acordo com números da Pesquisa Nacional de Saúde, de toda a população branca atendida no SUS, 9,5% sentem discriminação, enquanto 23,3% da população negra (pretos e pardos, segundo o IBGE) saem da unidade hospital com o sentimento de preconceito racial.

Citei esses dados para demonstrar a perversidade do racismo brasileiro que, além de fingido e enrustido, faz muitos negros por falta de consciência, conhecimento histórico e ingenuidade, se insurgirem contra a própria raça e a cor. Essa conversa de que o preconceito é social e não racial é balela, porque se assim o fosse jogadores milionários negros não seriam chamados de macacos e ninguém jogaria banana neles.

Mas não adianta reclamar sem tomar atitudes. Por exemplo: o promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo José Avelino Grota afirmou em página do MP no Facebook que "o negro, em geral, é catinguento, porque sua muito e, não tomando a quantidade diária de banhos, acaba fedendo mais que o recomendável". O Jornalista William Waack da Globo citou a frase "é coisa de preto." Em ambos os casos não foi tomada por parte dos ofendidos nenhuma atitude jurídica contra tais comentários. Ou seja, quem cala, consente!

E termino citando a frase do polêmico cantor e compositor Aguinaldo Timóteo: "O racismo só vai acabar de verdade no Brasil quando o último branco racista for enforcado com as tripas do último negro que discrimina a própria raça e a cor."

 

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