O prefeito Clodoaldo Gazzetta enfrentou dificuldades esperadas de um governo que integra, em seu escalão principal, perfis heterogêneos e com parte dos integrantes sem experiência em gestão pública. O próprio prefeito não tem em seu currículo o experimento de lidar com a engrenagem executiva pública. Terceiro setor e assessoria é algo muito diferente do que gerenciar uma prefeitura do porte de Bauru.
Assim, patinar no encaminhamento de ações de governo é normal. A questão é o gestor conseguir rápido aprendizado. De outro lado, a gestão Gazzetta apresentou para a sociedade vontades orgânicas que exigem além de boa vontade. Ao completar quase um ano de seu mandato, o prefeito indica que avançou em algumas de suas ideias. E também já está posto que precisa ajustar intenções e reformular propostas e equipe.
Neste final de ano, em especial, o prefeito demonstrou ansiedade com medidas estruturantes. E corre o risco de não vê-las sair do papel. Faltou, no mínimo, estratégia de comunicação e de ação institucional de governo para demandas de porte.
Os exemplos mais claros vieram em um intervalo de não mais que 15 dias. À véspera do primeiro feriado de novembro, o governo municipal protocolou, no final da tarde anterior, projeto de lei pedindo autorização do Legislativo para qualificar uma série de atividades públicas para prestação de serviços junto ao chamado Terceiro Setor. A lei das Organizações Sociais (OS) veio com um guarda-chuva aberto, incluindo cultura, tecnologia, educação, serviço social, meio ambiente e saúde.
O erro no "time" e no alcance da proposta fez o governo ter de sair a campo explicar questões como "firmar contrato de gestão sem licitação", ao invés de dedicar energia à proposta. O tamanho do guarda-chuva assustou e o governo recuou para tentar aprovar seu real objetivo: ter carta branca para qualificar entidades como OS e, com isso, dar sequência à entrada da administração no Hospital de Base, tendo a Uninove como parceira no curso de medicina privado. O segundo round da medida seria qualificar a Fundação de Saúde Regional como OS, depois. Ação de difícil junção jurídica, por ser fundação estatal, órgão da administração indireta, e não privado.
Não bastasse o susto na proposta de 'OS' geral e irrestrita, o governo bauruense veio, uma semana depois, com projeto de lei para mudar a atual política tributária via IPTU. A apresentação às 18h30 de uma sexta-feira deixou lacunas técnicas e, no veio político, poucos conseguiram entender a troca da fórmula atual de cobrança por faixas de valores - que é ilegal - pelo método do valor venal, como antes.
Mas quando a pauta IPTU ganhava amplitude, o governo ainda anunciou adesão municipal a convênio federal para pagar mais de R$ 4 milhões, via Caixa Federal, a estudo para a pretendida Parceria-Público-Privada do lixo. Em duas semanas, no final do ano, a seis sessões do recesso jurídico-legislativo, o Executivo lançou três medidas de enorme alcance na sociedade, de tributação e de mudança de paradigma no atual modelo de prestação de serviços. Os erros em estratégia de comunicação e interlocução fizeram eco e o debate de mérito sucumbiu às indagações e por falta de informação.
Todo bauruense de bom senso torce para que o governo dê certo! Fica renovada a torcida com o adendo de que não há como fugir do enfrentamento de problemas estruturais, de engrenagem pública, penduricalhos, vícios e soluções. E isso é muito além de criar OS e abrir PPP. Sorte e energia para Clodoaldo Gazzetta!
O autor é jornalista, autor do livro Literatura cantada e compositor.