O ano será lembrado como aquele em que as mulheres se atreveram a denunciar seus algozes por crimes de violência ou assédio sexual. Em toda a mídia, 2017 foi pródigo em escândalos, a começar com o envolvimento do produtor de Hollywood, Harvey Weinstein. O chefão da maior "fábrica de sonhos" do cinema, teria atacado mais de uma centena de famosas atrizes, nos últimos 40 anos. Nem a Mulher-maravilha, Gal Gadot, escapou das investidas. A técnica era simples: primeiro, Weistein ameaça usar sua influência - que não era pouca - para acabar com a carreira de quem lhe desobedecesse. Apavoradas, as candidatas ao estrelato deixavam seu escritório ou quarto de hotel invariavelmente em silêncio.
Por vezes, segundo os relatos que vieram à tona, as vítimas se sentiam culpadas e envergonhadas por terem "cedido" àquele homem imenso, forte, grosseiro, rico e poderoso. O produtor de filmes respeitáveis, como "Pulp fiction, de Quentin Tarantino, e "O discurso do rei", de Tom Hooper, foi expulso da própria empresa e também das cerimônias futuras do Oscar. As denúncias continuam a pipocar, contra outros figurões. A Academia de Artes e Ciências de Hollywood anunciou o fim da era da cumplicidade vergonhosa diante do comportamento predatório e do assédio em ambiente de trabalho.
Enterrar a cabeça na areia já não é mais opção. Assédio e violência sexual são abundantes na sociedade. Mas, embora generalizada, não significa que o problema seja inevitável. Na Inglaterra, a primeira-ministra Tereza May fez um discurso no Parlamento contra a antiga cultura sexista que domina Westminster, desde 1918. Decidiu falar, depois das denúncias sobre a estranha mania do seu principal assessor, de ditar mensagens com a mão no joelho das secretárias. Nos Estados Unidos, o ex-presidente George Bush, hoje em cadeira de rodas, diverte-se apalpando as nádegas das moças que passam e de contar piadas sujas à plateia feminina. Donald Trump também aprontava, quando dirigia o reality show "O Aprendiz", na televisão.
A situação ficou tão feia que as autoridades decidiram deflagrar a "tolerância zero", para ataques sexuais. Somente na China, o poder do macho continua incólume. Lá, as feministas foram presas por protestarem contra o assédio nos transportes públicos. Não porque a causa é subversiva, mas sim por que se organizaram fora do sistema do Partido Comunista.
No Brasil, também tivemos os nossos casos, como o do ator José Mayer, que caminha para o esquecimento. Mais conhecido como ex-preparador físico de Airton Senna, Nuno Cobra pegou 3 anos e 9 meses de prisão em regime aberto, por violação sexual durante um voo, do qual foi vítima uma jovem de 21 anos. Neste país, leis, processos e decisões judiciais ainda são realizadas de acordo com a experiência masculina de mundo. Todo o nosso arcabouço jurídico, positivista, foi construído de acordo com o masculino e a masculinidade. Ainda se discute se submeter uma mulher a constrangimentos de ordem sexual, em transporte público, é crime ou simples contravenção.
Conta-se o caso do tarado que ejaculou na perna da moça, no metrô e, na fuga, roubou a bolsa da sua vítima. Pegou 4 anos de cadeia por roubo e 11 dias-multa pelo assédio. Faltou o "introductio penis erectus in vagina". Oh, my God. O dia-multa depende da situação econômica do réu. Se ele não pagar, será inscrito como devedor da Fazenda Pública. Se quiser, faz um Refis e paga em prestações e com descontos. Não existe assédio fora das relações laborais. Tem que haver a figura de um superior hierárquico, com ascendência nas relações empresa-empregado. Marx diria tratar-se de mais uma contradição do valor capitalista da propriedade privada.
Em razão da fúria e do efeito epidêmico que a ideia de assédio sexual faz desencadear, fico pensando se não haverá arrependimentos no futuro. Explico: homens, e também mulheres, vão capitular, definitivamente, de correr riscos por seus desejos. Como se já não fosse arriscado o bastante, desejar alguém. Estou na idade em que a beleza passa, cheia de graça, e aquece o meu imaginário. Fica por aí...
Para os jovens, deve ser muito chato viver num país sem o jogo da conquista. A velha cantada, como forma legítima de aproximação de corpos e mentes, agora é tratado como caso de polícia. Vejo em perigo a prevalência do princípio da sedução, pelo qual as mulheres tanto lutaram. Depois da pílula, caíram a sacralização repressiva dos corpos e o tabu da virgindade. Foi um avanço, agora ameaçado por uma histeria antiassédio, como fenômeno de massa.
O autor e jornalista e articulista do JC.