Pedro Mexia, famoso cronista português, foi à padaria. Nada de errado nisso. Tanto aqui, como em Portugal, cronistas famosos ou não vão à padaria. Aliás, mais de pão do que de qualquer outra coisa vive o escritor. Acho que, entre nós, só o Temer não vai à padaria. Perfeitamente compreensível. Na padaria, um velhinho simpático aproximou-se do escritor e o parabenizou pelas crônicas, mas fez-lhe, reservadamente, um pedido: "Não escreva tanto sobre si mesmo."
Pronto, complicou. Esse é um dos grandes problemas da literatura: não se pode confundir autor com narrador. O autor é uma coisa, o narrador é outra. O autor é de carne osso, tem CPF, unha encravada e disenteria, como qualquer infeliz vivente. O narrador não existe. Ele é inventado pelo autor. É personagem. Um exemplo? Eu, autor, invento uma senhora idosa para ser narradora da minha crônica. Imaginemos que essa narradora, que acabei de inventar, esteja depressiva em razão do enorme peso dos dias e da idade. Ainda que eu (autor) possa ter alguma identificação com ela (e tenho), eu não sou ela. Eu sou eu! Eu sou o autor, ela é a narradora, e eu mando nela. Ela até pode ter disenteria, mas é de mentirinha. Quem decide a diarreia dessa senhora sou eu, jamais os intestinos dela. Credo!
Confuso? Tentarei ser mais didático. Eu, autor (gente de verdade, lembra-se?) resolvo escrever uma história de bichos. Crio, então, uma anta para narrar a minha história. Dá na mesma: continuo sendo o autor e não uma anta. Credo!
Muitos livros didáticos pagam mico. Na interpretação de uma história qualquer, costuma-se ler: "O que autor quis dizer quando se referiu à velha árvore?" Duas asnices. A primeira: não foi o autor quem disse, mas o narrador. A segunda: se o narrador "quis dizer" e não disse, é burro também. Credo! Essa confusão quase que me levou a um impeachment conjugal. Tentei explicar à minha mulher que, quando falo mal dela nas minhas crônicas e contos, na verdade aquela minha mulher não é a minha mulher de verdade, porque aquela minha mulher é de mentirinha e ela, a minha mulher de verdade, não é de mentirinha, mas é de verdade. Credo!!!
Me enrolei todo explicando essa confusão. Não adiantou nada. Ela de bico e ressentida retrucou: "Então, me faz um favor: quando você for escrever essas bobagens, vê se me esquece. Escreve sobre outra mulher, de verdade ou de mentira, a sua mãe, por exemplo.
Mudei a estratégia, eu precisava convencê-la. Expliquei a ela que os leitores acabam se identificando com as personagens, ou seja, eles passam a ser as próprias personagens. Em uma novela de tevê, por exemplo, todo mundo chora, sofre ou fica feliz, porque se identifica com a mocinha da novela. Ninguém se identifica com a vilã. Claro, todas as pessoas são boas, ao menos assistindo novelas. Então, quando , o narrador fala mal da sua mulher (a de mentirinha, lembra?), todos os maridos se identificam com ele porque estão pensando nas suas mulheres de verdade. Equilibrava-me nesse raciocínio tortuoso, mas acabei escorregando feio: "Então, meu amor, essa minha mulher das crônicas acaba sendo, por identificação, mulher de todos os homens. Entendeu?" Enfurecida, ela me disse uma coisa emputecida e cabeluda que não posso aqui mencionar, tampouco sugerir.
Não desisti. Recorri a um clássico da literatura. Machado de Assis foi um autor genial. Nem por isso deixou de ter as suas disenterias. Ele é o autor do romance Memória Póstumas de Brás Cuba. Autor sim, mas narrador não. Sabe quem é o narrador? Um defunto. Isso mesmo, a história é narrada por um defunto. Machado não era defunto, logo não poderia ser o narrador. Tanto é que, depois de morto, ele não escreveu nem narrou nada. Credo!!! Falei aos ventos, minha mulher tinha sumido.
Me esqueci da padaria! Voltemos lá. O escritor português ouviu o puxão de orelhas do velhinho, sorriu e agradeceu. Mas não chegou a lhe dizer isto: "Algumas dessas crônicas sobre mim não são de fato sobre mim. Se fossem, certamente não interessariam a ninguém (sobretudo não me interessariam a mim). Essas crônicas são também, assim o espero, sobre si leitor, meu semelhante, meu irmão".
O autor é Professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras (ABLetras).