Quase hora do jogo. Sempre haverá alguém a encerrar a dúvida na sala: "Põe no Galvão mesmo!". A gente fala que ele não deixa comentarista comentar, repórter reportar, mas... vamos de Galvão mesmo. Galvão Bueno está no topo da lista da categoria "amamos odiar".
Sentimento estranho. Dúbio. Contraditório. Confuso. Bem humano. Outro exemplo: durante a semana pudemos praguejar essa onda de calor. "Inferno!". "Tá uma lua lá fora!". "Que bafo quente!". No inverno, não vemos a hora de sentir o verão por perto. Amamos odiar o calorão.
Jamais farei tal delação aqui, mas há lugares que frequentei onde o atendimento era falho, a cerveja meio quente, a porção gordurosa, e continuava a ir. E não sozinho. Porque a coisa funciona no plural: "amamos odiar". Há todo um coletivo de pessoas com a mesma tosca necessidade.
O que explica nossa alegria num último dia do ano, dentro de um supermercado totalmente lotado, numa cidade do litoral paulista? Já vi até briga. E periga encontrar os brigões novamente em outro 31 de dezembro, todos suados, felizes com seus exageros de compra em cima da hora. No fundo, tristes por não ter esse imbróglio praiano nos demais meses sem festa.
Amamos odiar vilões em filmes/séries/novelas. E quase torcemos por eles. Muitos torcem mesmo. Quem viu "Lost" se lembrará de Bejamin Linus e seus olhos esbugalhados. Sem contar o Coringa, bem mais interessante como personagem (como personagem, deixando bem claro) do que o próprio Batman.
E amamos odiar a segunda-feira. A coitada significa renovação, mas queremos mais é falar mal dela. No fundo, no fundo, é amor pela Geni dos dias. É por isso que a cidade vive sempre a repetir: maldita segunda!
Amamos odiar tantas coisas e que possamos assim continuar: sinal de que, mesmo num mundo tão tecnologicamente certinho, ainda curtimos as nossas emotivas e divertidas imperfeições.