Li e reli a crônica do amigo Renato Zaiden publicada no dia 25 de dezembro, na qual ele viajou pelo tempo, recordando passagens vividas em períodos que vão longe, as quais igualmente trouxeram lembranças de um passado que desfrutei já na fase adulta e que ainda permanece em minha memória. Naquela leitura, retornei à época descrita pelo Renato e resolvi me aprofundar.
Nos anos 30, por exemplo, do século XX, lembro perfeitamente dos soldados gaúchos, fiéis a Getúlio Vargas, desfilando pelas ruas Batista de Carvalho e a 1º de Agosto (esta na época se chamava Washington Luiz, era o presidente da República), mas que com a ascensão de Vargas, ganhou outra denominação, ou seja, João Pessoa, paraibano que na eleição de 1930 foi vice na chapa do futuro ditador.
Lembrei dos cinemas do meu tempo de criança, o Teatro São Paulo, Cine Bauru e o Bandeirantes (depois Capri) e, como o Renato citou, fui muitas vezes a seção das 18 horas, no domingo, mas levava um pequeno rádio transistor, movimentado a pilha, para ouvir as transmissões dos jogos de futebol. Jamais me esqueci das sessões de domingo a noite, quarta feira, quando eram exibidas grandes atrações cinematográficas que provocavam enchentes e longas filas para a compra de ingressos.
Não me esqueço de que, para entrar no cinema, era obrigado a usar terno completo. Se durante a sessão tirasse o paletó, era chamado atenção pelo policial em serviço e muitas vezes colocado para fora se desobedecesse aquela determinação. Durante o filme, os namorados não podiam também exagerar nos abraços, beijos e só era tolerado pegar nas mãos.
No campo esportivo, como noroestino convicto, chorava quando o Alvirrubro perdia para o Lusitana (este depois mudou o nome para Bauru A.C.). Essa disputa era uma festa no futebol bauruense. Os dois estádios recebiam público numeroso por ocasião desses jogos inesquecíveis. Tivemos o privilégio de acompanhar a ascensão de Pelé que, desde criança, encantava com a magia do seu futebol.
Grêmio Bauruense, Paulista, Bauru Tênis Clube e Automóvel Clube era as entidades sociais, recreativas e esportivas que movimentaram a mocidade da então Capital da Terra Branca em noitadas repletas de muita animação. O trecho da 1º de Agosto, entre a Agenor Meira e Gustavo Maciel, conhecida como a Cinelândia, tinha o trânsito suspenso no sábado e domingo a noite, pois aquelas quadras recebiam um grande público, quando acontecia o tradicional "footing", ou seja, as moças passeando em ida e volta e os rapazes observando, quando então surgiam trocas de olhares e um possível namoro.
O comércio da Batista de Carvalho, aos sábados e domingos, exibiam suas vitrinas ricamente ornamentadas. Famílias, casais, namorados percorriam a nossa principal artéria comercial, em toda a sua extensão, apreciando as ofertas.
À época, não poderíamos nos esquecer do movimento da estação ferroviária, com a chegada e saída dos trens de passageiros da Cia. Paulista de Estradas de Ferro, da Sorocabana e da Noroeste do Brasil. Esta chegava até duas fronteiras, ou seja, Bolívia e Paraguai, com seus trens de longo percurso.
Renato Zaiden, você provocou um feliz retorno aos velhos tempos quando li a sua crônica em Sacadas e essa volta ao passado fez com que eu também contasse um pouco sobre os tempos vividos na mocidade, tempos esse que, se não voltam mais, nas páginas mensais do Bauru Ilustrado ressurgem como num passe de mágica.