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A rolha do champanhe

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Em toda passagem de ano, a mídia capricha na retrospectiva dos fatos curiosos e trágicos, além de arriscar projeções para o futuro. Os editores pautam assuntos criativos. Querem sair do lugar comum. Em vez de cair no batido "quem assediou e quem foi assediado", a reportagem que me chamou a atenção procura ensinar truques para que o leitor tenha um belo réveillon. Fiel à palavra francesa réveillon, que significa acordar, despertar, um especialista dá conselhos sobre como "esquentar a relação" amorosa logo nos primeiros dias de 2018.

Se a vontade sexual já não é a mesma de antigamente, os parceiros devem planejar momentos especiais. Fazer uma viagem para um lugar romântico, por exemplo. Se viajar é impossível, o sexólogo sugere que, pelo menos, o casal transe em locais imprevistos como a mesa da cozinha ou algum vão de escada.

O risco de ser flagrado por olhares indiscretos do vizinho ajuda a reacender a velha chama, justamente por transmitir a sensação de fazer algo proibido, como nos tempos da adolescência, cada vez mais precoce. Lembrei-me do velho Eça de Queiroz que ria daqueles que achavam que podiam se curar de tuberculose, simplesmente por mudarem de clima.

Outro sabichão, na tevê, dá instruções sobre como se livrar dos excessos do réveillon. - "Beba um copo de água quente em jejum, ajuda a limpar as toxinas". Tales de Mileto, em 600 a.C. já concluía que a água é o princípio de todas as coisas, inclusive é a solução para curar ressacas. Na sequência do programa, a discussão passa para a cor da calcinha a ser usada na passagem do ano. Branco é paz; rosa é amor; vermelho, paixão; amarelo chama riqueza.

O "personal stylist", consultor de imagem e estilo, assegura que a cor predominante no bota-fora de 2017 será laranja, que atrai alegria, desperta criatividade e ousadia. Entra na discussão outro modista dizendo que joga suas fichas na prata, símbolo da modernidade, do "começar de novo". Quem não quiser errar que use cueca amarela, calça branca, camiseta laranja e um anel de prata. Sem esquecer do verde-esperança e do roxo-purificação. E se não houver mais peças de roupas nesses tons, use apliques.

Excesso de criatividade teve o editor de cultura do Diário de Notícias, de Lisboa, pessoalmente dedicado a analisar a importância da temperatura da garrafa de champanhe. Cientista britânica criou uma fórmula matemática para que a rolha, ao sair da garrafa, faça aquele som. "Pop", à sua saúde. A geladeira vulgar apenas esfria uma garrafa a 11 graus. O espumante precisa ser mergulhado num balde de gelo durante 40 minutos, para chegar a 6,7 graus. Será preciso aplicar pouca pressão quando remover a rolha.

Empurre-a devagar, com o polegar. Somente assim você terá o sonoro "Pop". Viva 2018! O som ideal, explica a matéria, foi descoberto usando um software de computador, conhecido como análise espectral, para analisar o brilho que o espocar produz. Segundo os engenheiros de som, deve ter entre 8.000 e 12.000 hertz. Seguindo fielmente as instruções, o mundo será salvo, sem dúvidas.

Infalíveis as previsões de mestre Janjão, com sua leitura dos búzios, aquelas conchinhas marinhas. O futuro presidente do Brasil será "das direitas". Mas, há algum candidato das esquerdas, com potencial de sucesso? Lula será barrado pela Lei da Ficha Limpa. Para muitos, um golpe contra a democracia. Para outros, dá na mesma. As previsões para a Copa do Mundo, na Rússia, são pouco promissoras à seleção canarinha. Se chegar a finalista pode esbarrar na Alemanha, mas o 7 a 1 haverá de ser vingado. Confesso que não entendi...

Os economistas opinam que o Brasil vai crescer em 2018. A reação econômica virá mais por inércia do que por estímulos. A agropecuária, mais uma vez, será a "salvação da lavoura", com uma supersafra. O mercado, fica na dependência da aprovação da reforma da Previdência e da eleição do novo presidente da República. Estamos todos "Esperando Godot". Situação parecida com a que ocorre na peça teatral do irlandês Samuel Beckett.

Os personagens sabem que esse "salvador da pátria" nunca vai chegar, mas todos esperam por ele. A vida é o que está acontecendo e não o que estamos esperando. Caso contrário, o perigo é não vivermos a realidade, a única a ser melhorada para poder nos assegurar um futuro melhor. Feliz Ano Novo.

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