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Renato Papassoni, com ele o tempo não para

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

Douglas Reis
Renato é um dos últimos da região a trabalhar apenas com relógios que necessitam de corda para continuar funcionando

Pode-se dizer que Renato Papassoni desafia o tempo. Não só pelo fato de estar em plena atividade, com disposição física e vontade de trabalhar como poucos, já que está bem próximo de completar 80 anos. Não só pelo fato de estar casado há 62 anos com Walderez Utida Papassoni. Mas, principalmente, por fazer da habilidade em consertar relógios o seu ganha-pão. Entrar na loja dele é uma volta ao passado. Seu Renato é um dos últimos da região a trabalhar apenas com os aparelhos que necessitam de corda para continuar funcionando. Cucos, carrilhões e relógios de mesa, protegidos por caixas de madeira maciça, que são verdadeiras obras de artesanato, estão por todos os lados. E há também os relógios de pulso, dezenas deles, verdadeiras relíquias.

Jornal da Cidade - A gente chega e no balcão e dá de cara com um gramofone, um instrumento musical, não é estranho?

Renato Papassoni - Na verdade, não. Um amigo passou e estava procurando quem consertasse este tipo de aparelho e ele tem um sistema meio que parecido com cordas dentro, que o leva a girar e tocar os chamados bolachões (discos de vinil e LPs). Então, eu disse: deixa aí que vou tentar dar um jeito. 

Jornal da Cidade - E soube que o senhor dá jeito mesmo, quando não consegue a peça que falta para trocar, o senhor mesmo a fabrica, é verdade?

Renato Papassoni - É sim. Algumas peças são tão antigas, que fica difícil arrumar. Veja, a gente está falando de relógios que têm décadas, até 100 anos de idade. São coisas raras. Imagina como conseguir peça para eles. Existem duas grandes fábricas ou importadoras no Brasil. A Kienzle (é de origem alemã fundada em 1822) e a Herweg (também alemã), ficam no Sul. Inclusive, uma delas agora tem a linha de montagem na China. A gente tem contato com eles e acaba conseguindo peça, se não original, a similar. E temos nosso acervo de antigos, que é justamente para tirar peças e nem sempre a engrenagem dá certo. Então, eu uso minhas habilidades de torneiro. Vou ao esmeril, dou o acabamento ou peço a um amigo que é torneiro e ele fabrica o que preciso.

JC - Tem que ser um serviço muito preciso...

Renato - Com certeza, é um trabalho de precisão. Não basta só o relógio funcionar. Ele fica aqui na parede dias e dias trabalhando para ter certeza de que não vai atrasar e adiantar nem um minuto. Muitas vezes, a gente conserta, ele volta a funcionar e depois atrasa. É um trabalho garantido. Damos um ano de garantia. 

JC - É um desafio consertar uma máquina dessas?

Renato - Sim, sim e é muito gratificante. Eu não sossego enquanto não consigo.

Douglas Reis
Um apaixonado pela profissão

JC - Em tempos de tudo descartável compensa consertar?

Renato - Sim, compensa, com certeza. Os consertos são minuciosos. Veja: uma engrenagem pode custar uns R$ 300,00, mas, em geral, um relógio desses vale de R$ 2 mil até R$ 3 mil. Vale a pena. Nos antiquários, eles são uma fortuna. Isso sem falar no valor sentimental.  A maioria das peças é única e tem um significado afetivo. São relíquias, presentes e peças que contam história das famílias. A gente tem que ter muito cuidado, por isso eu guardo o tempo todo os relógios que há mais de dois anos ninguém veio buscar. Sei que há por trás uma história de família.

P.S. Neste momento, a entrevista é interrompida. Chega a cliente Lígia Quinete. Com um rolex de pulso, automático, desses que só funciona com o balanço do braço e tem autonomia para 24 hora. Lígia tira para dormir e se esquece de usar no dia seguinte e ele para. Em um instante, Renato dá corda para ela, que sai feliz da vida, com a herança de família no pulso. 

JC - São mais de 60 anos na profissão...

Renato Papassoni - De fato, eu aprendi e tomei gosto por isso quando tinha 14 para 15 anos. Um dos meus irmãos, o Almerindo,  era empregado da antiga Casa Zulian, fui atrás do que ele fazia (risos) e deu certo. Comecei ali e nunca deixei esse trabalho de lado a não ser para servir o Exército, em Corumbá (MS), mas foi só por um ano.

JC -Ah, é? E o senhor é bauruense nato?

Renato - Sou sim! Nascido e criado aqui! Fiz a vida aqui, gosto muito da cidade. Nascido em uma fazenda, na roça, como se diz, lá na região de onde hoje é o aeroporto. Éramos dez irmãos. Mistura de italiano com espanhol, famílias Rossi e Papassoni. Na minha infância, moramos pelos lados da Monsenhor Claro e rua Sete de Setembro, não havia nem calçamento. Acompanhei o desenvolvimento desta cidade. Só neste ponto, nesta loja (esquina da Azarias Leite com Cussy Jr) são cerca de 30 anos. E haja serviço!

JC - Tem muito?

Renato - De fato, graças a Deus, tem sim. Há uma fila enorme na linha de montagem. Mas poderia estar melhor. Antes, a gente dava 30 dias para entrega. Hoje, em função da dificuldade de conseguir uma peça, o prazo passou para 60 dias. E olha que agora tenho ajuda (risos).

P.S. Outro parênteses na entrevista: ao lado dele está a filha mais nova, Rosiley, que aprende os macetes do ofício com o pai.

JC - O senhor também construiu uma família em Bauru.

Renato  - Estou casado há 62 anos. Ela era telefonista em Piratininga. Sou do tempo do footing, aquela paquera que lá era na frente do cinema, nem era na praça. Você ia e voltava, andando, paquerando. Resultado: tenho três filhos: o Renato, a Rosana e a Rosiley, que já me deram cinco netos e duas bisnetas. São lindas. É uma alegria a gente ver a posteridade.

JC - Qual é o segredo para um casamento tão longevo?

Renato - Sou tranquilo, sou da paz, não sou de brigar, não. E olha que morei com a sogra! Nunca briguei com ela. Não posso falar mal de sogra, não, dizem que ela era minha fã. Minha mãe também morou um tempo junto com a gente. Deu tudo certo. Sogras são bem-vindas, as nonas, na nossa família. O que pode ter colaborado também é que eu mando bem na cozinha!

JC - Ah é?

Renato Papassoni - Sou daqueles de fazer macarronada, pastel, elogiadíssimos e faço até a massa. Adoro fazer churrascos. E sobremesas. Meu pudim também é ótimo. O de coco com morango (uma invenção minha) é sucesso em família.

Herdeira dá testemunho

Douglas Reis
Renato Papassoni e a filha Rosiley Utida Papassoni

"Meu pai é uma pessoa especial, não porque é meu pai, mas porque, convivendo todos os dias, como profissional e aprendiz, me surpreendo sempre...

Temos muitos clientes antigos e novos, com todos os tipos de problema. Relógios novos a antigos, problemas diversos, peças quebradas, relógios desregulados, máquinas necessitando de ajustes, peças antigas sem substituição, peças de madeira, cupim... Vemos de tudo.

Ele analisa, faz orçamento e inicia alguns casos aparentemente sem acerto. Depois de várias tentativas, ele consegue um bom resultado.

Todos os dias temos um novo aprendizado. A parte técnica é nova para mim. E, é claro, tem que enfrentar os problemas do dia a dia. Mesmo quando achava que já sabia o bastante, mesmo quando achava que com 49 anos teria menos surpresas (risos), aprendo a lidar com máquinas mecânicas antigas e novas e a aprimorar a arte da convivência, da paciência e a sabedoria que os 65 anos de trabalho dele nos trazem, ensinando que o que sabemos ainda é pouco, que tudo passa, que se deve aproveitar o hoje como se fosse o último dia, sempre com o seu melhor...

Agradeço a Deus pela decisão de quase dois anos, de retornar a Bauru (sou do magistério e estava no Rio de Janeiro trabalhando em área administrativa), de conviver com meu pai e minha família. Sem dúvida, foi minha melhor escolha!"

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