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'Manas' que colocam a mão na massa

Juliana Diógenes
| Tempo de leitura: 4 min

Reprodução/Facebook
May Barros: serviços mais pedidos são instalar prateleira, consertar descarga, trocar torneira e resistência de chuveiro

Empresas de manutenção com mão de obra feminina para atender exclusiva ou preferencialmente a mulheres têm se espalhado pelo País. Já há serviços do tipo em pelo menos nove capitais: São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Recife e Belém.

Uma das primeiras ações do tipo começou em agosto de 2015, em São Paulo. A então cineasta Ana Luísa Correard, 29 anos, decidiu oferecer bicos de serviços de manutenção após desconforto com um funcionário que fez reparos na sua casa. "Estava sozinha e ele perguntava onde estavam meus amigos, que horas voltariam. Fui reclamar no Facebook e várias amigas falaram que passavam pelo mesmo problema."

Para ajudar as amigas, ela se ofereceu para fazer serviços. O bico durou dois dias. A publicação sobre o assunto repercutiu na internet, alcançando mil compartilhamentos. Em 15 dias, ela largou o emprego. Criou a empresa Mana Manutenção e já acumulou 2,5 mil clientes, com uma equipe de oito mulheres.

A habilidade com serviços de manutenção Ana Luísa aprendeu com o avô. Hoje suas clientes são mulheres jovens "que querem incentivar outras mulheres a trabalharem em qualquer área que seja", segundo ela. "Essas mulheres têm filho novo, moram sozinhas e, normalmente, optam por uma prestadora de serviço mulher pela segurança que isso traz."

Com o crescimento da empresa, Ana Luísa e a sócia começaram a compartilhar na internet vídeos e cursos básicos de elétrica, hidráulica, pintura e manutenção. Em janeiro, vão lançar um aplicativo.

A celebrante de casamentos Bárbara Nascimento, de 32 anos, já contratou um serviço semelhante: o Manas à Obra, também de São Paulo. "Quando descobri que tinham mulheres fazendo, fui atrás", conta ela, cujo marido viaja muito. "Não confio em ficar sozinha com outros homens em casa."

A coach Patrícia Andrade, 53 anos, pensou na família ao pedir o socorro feminino. "São pessoas com quem íamos conviver o tempo todo por 50 dias. Precisa ser um serviço com carinho, paciente", diz ela, que mora com o filho de 17 anos. Após a reforma da fiação elétrica, ficou impressionada com a "limpeza" da equipe comparada a outras experiências do tipo.

Para quem mora sozinha

No Rio de Janeiro, o público da empresa Ela Repara é, na maioria, de mulheres que moram sozinhas. A proprietária e mecânica Isis Pioneli, de 27 anos, conta que grande parte tem renda mais alta e vive com certa independência. A iniciativa foi criada há pouco mais de um ano, após uma experiência ruim de Ísis no emprego. "Tive de ouvir 'você não vai dar conta do trabalho igual aos outros homens dão'", lembra.

Hoje, ela acredita que mesmo as mulheres ainda veem esse tipo de empresa com certa desconfiança. "Ainda acham que não vamos conseguir ou que não sabemos fazer", afirma Isis, cuja irmã é formada em Eletrotécnica e a mãe, em Edificações.

Elas fazem de tudo um pouco

Segundo a dona do Manas à Obra, Priscila Vaiciunas, a clientela não é só de mulheres. "Quando é um homem que me procura e não conheço, tenho que 'stalkear' (pesquisar sobre a vida de alguém na internet) o cara para ver se não tem nenhum tipo de problema", explica ela, de 32 anos. A demanda masculina, diz, geralmente é de quem estuda muito e não domina pequenos reparos. "Tem também os casados que ficam com receio de por homem estranho porque tem mulher ou filho em casa."

Em Salvador, a museóloga May Barros se inspirou no modelo já iniciado em São Paulo para criar a empresa Entre Minas. Os serviços mais pedidos são instalar prateleira, consertar descarga, trocar torneira e resistência de chuveiro. Em dois anos, ela atendeu mais de 500 pessoas e hoje trabalha com outras duas moças - em 2018 a equipe deve crescer.

Faça você mesma

É  casa vez maior o número de mulheres que "coloca a mão na massa", literalmente. Para economizar ou por não querer esperar "fila na agenda" de profissionais, elas preferem fazer o serviço. Por conta disso, é cada vez maior o número de mulheres em cursos de marcenaria, construção civil, assentamento de pisos, manutenção elétrica, entre outros.

E não satisfeitas em aprender, elas ensinam as outras. No Youtube há vários videos de mulheres ensinado a rebocar a casa, pintar etc.  Caso de Paloma Cipriano, que resolveu "colocar a mão na massa" para ajudar o pai a terminar a casa e hoje ensina técnicas em videos. 

Paloma não é a única. Karla Amadori ensina desde pintura básica e baús estofados até racks e painéis de madeira. Formada em design de interiores, a jovem teve a ideia do canal em 2015, quando quis reformar seu quarto. A ideia era fazer um rack com caixotes de feira, mas não sabia nem como começar. Foi ao YouTube em busca de ajuda para o manuseio de ferramentas e não achou nada muito específico sobre os tais caixotes. Quando foi montar a peça decidiu gravar e publicar no site. O vídeo bombou teve grande repercussão. Com a resposta positiva do primeiro vídeo, ela começou a gravar outros trabalhos. "Quando viram uma mulher mexendo com ferramentas, fazendo o que na grande maiorias das vezes é feito por homens, elas se inspiraram. Fui alimentando essa coragem e hoje muitas falam que que querem encarar esses desafios", conta.

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