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Pegamos o caminho errado

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Entramos nesse novo século sem bússola, mas, independentemente de qualquer coisa, este será o século que determinará qual é a população humana ideal para esse planeta. Ou administramos esse crescimento ou a natureza fará isso por nós, através da fome, sede, caos climático e guerras por minguados recursos.

O número de pessoas continua aumentando principalmente nos países mais pobres e a medida que aumenta, também, é preciso aumentar a economia global para alimentar, vestir e abrigar toda essa gente. Além disso, sempre haverá algo novo e empolgante de que eles precisam. Portanto, estamos diante de números que crescem em espiral, tudo se acumula e tudo se esparrama e o atrito aumenta. Só no primeiro dia deste ano, 386 mil novas pessoas começam a viver nesse planeta, a maioria na Índia e China; por aqui são 8 mil esperançosos brasileirinhos.

Nesta equação estamos lidando, basicamente, com duas forças opostas: a primeira é o poder científico e tecnológico que se propõe a resolver o dilema do mundo de como continuar crescendo em um espaço que não cresce e de produzir cada vez mais alimento e água potável. No outro lado da equação aparece o poder biológico da reprodução humana, que se sobrepõe ao outro porque ninguém quer que lhe digam o que fazer sobre algo tão pessoal e natural.

Atrelado ao segundo membro dessa equação ou ao crescimento demográfico, existe o impacto consumista e o da geração de rejeitos. É uma ilusão achar que esse impacto consumista pode ser contido; se salvar o planeta depender da mudança da natureza aquisitiva dos humanos, a Terra está irremediavelmente perdida. Essa é a grande verdade, não há preservativo para o consumo, não se consegue dominar a ganância humana e com certeza, o próximo bilhão de pessoas, que acrescentarmos a esse mundo, fará muito mais estrago que o último bilhão. Se não baixarmos o consumo, paralelamente ao decréscimo da população, tudo será inútil, pois, uns poucos abastados podem usar tantos recursos quanto milhares pessoas e consumir mais.

Mais gente significa mais energia e haja energia para sustentar o crescimento populacional e o aumento do consumo. Até agora, nossas melhores fontes de energia alternativa são a eólica e a solar. Embora tenhamos inúmeras formas de aplica-las, com muito mais abrangência do que o fazemos, o mundo continuará avido por espremer até a última gota de petróleo da crosta terrestre.

Pudera, mesmo que melhorássemos muito nossa eficiência em fontes alternativas não conseguiríamos suprir a demanda de todo nosso transporte, de nossas indústrias e de nossas Chinas e Índias. Na verdade, a única tecnologia que, de fato, poderia fazer diferença em nosso impacto coletivo, é aquela que nós já possuímos: a que restringe o número de consumidores e isso passa por homens e mulheres educados. A educação é, além de tudo, o anticoncepcional mais eficaz de todos.

Particularmente no Brasil, a falta da educação de qualidade nos obriga também a assistir a expansão da violência, da exclusão e do desespero. O Brasil é uma canoa à deriva, desnorteado, sem rumo, sem visibilidade, sem bússola, num mar global agitado. De alguma maneira, todos os povos da Terra estão na tormenta. Ricos e pobres, arrogantes e submissos, invasores e invadidos estão - estamos - a bordo da mesma frágil canoa, prestes a afundarmos juntos. Mesmo assim, continuamos a nos afrontar e a brigar, sem nos preocuparmos com o mar que se agita. Somos, inclusive, capazes de aplaudir a onda devastadora se ela, ao crescer em nossa direção, devorar antes nossos inimigos.

O que está em questão é a razão de ser de nossa civilização ou de nossa existência. Se chegamos a esse ponto, que mostra uma regressão material e moral, é porque pegamos o caminho errado.

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp – câmpus de Bauru.

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