Os especialistas em tecnologia digital elegeram a palavra "narrativa", como a que melhor define o sucesso da cultura digitalizada. Incluem-se as séries que estão à disposição dos assinantes na televisão, por demanda. Assiste-se a hora que se quer. Assistir a um episódio depois do outro exige narrativa envolvente. Implica em qualidade do roteiro, a criação de personagens mais complexas e uma trama sofisticada. Do tipo que existia em literatura. Séries juntam a qualidade visual do cinema com a complexidade narrativa dos grandes livros. O mestre do realismo fantástico, Gabriel Garcia Marques, no seu tempo já destacava o recurso literário de construir narrativas com alto nível de detalhamento. "Temos que fazer os leitores acreditarem na história" - ensinava o velho Gabo. Acreditar, não seria bem o termo, mas fazê-los mergulhar no ambiente fantástico criado pelo autor. Ninguém jamais acreditou que os habitantes de Macondo pudessem prosseguir na sua rotina sob a enchente do rio de águas diáfanas, onde peixinhos passavam nadando diante dos olhos dos personagens. Insistia o autor: "Se você diz que há elefantes voando nos céus, as pessoas não vão acreditar. Mas se você disser que há 425 elefantes alados, as pessoas provavelmente acreditarão".
A tecnologia que usamos para nos informar molda a informação. O digital cria narrativas que não têm fim. Temos dificuldade de nos concentrar em livros longos. Hoje, a narrativa que mais toma o nosso tempo é aquela com as quais informamos nossas famílias e acompanhamos a vida dos amigos. Facebook, Instagram, WattsApp. Vivemos atualizando várias plataformas, ao mesmo tempo, com vídeos, áudios, fotografias e algum pouco texto. O que comemos, para onde viajamos. Quando alguém adoece, cada passo da doença à recuperação. Cada dia do crescer dos nossos filhos - da gravidez ao, nasceu, comeu, andou, falou, leu, fez um gol. Bacharelou-se. Os capítulos são constantemente atualizados. Serializados em uma narrativa linear consistente e ininterrupta, que nos alimenta diariamente.
Reescrever - remodelar passagens, cortar trechos, trocar palavras - é a essência de escrever. Um dos livros de sucesso global, hoje, é "Como escrever bem", de William Zinsser. A intenção do autor foi elaborar mais um manual americano de escrita jornalística e de não ficção. Existem centenas de livros similares, inclusive no Brasil. A questão é que muita gente começou a entender que o domínio das técnicas narrativas também é uma forma de poder. Como foi, há vinte anos, o domínio da informação. Hoje, o narrador desonesto não tem como objeto a verdade dos fatos. A rede está repleta de radicalismos. Fatos - principalmente políticos - são manipulados e reformatados para que se encaixem em uma narrativa de conveniência. Os fatos deixaram de viver por si: são cuidadosamente selecionados para construir uma versão. Grupos de direita e de esquerda, profissionalizados, hoje se dedicam a construir rituais de humilhação pública nas rede sociais, na tentativa de linchar aqueles que pensam de maneira diferente. Voltamos a barbárie do pelourinho em praça pública.
O inegável avanço civilizatório, representado pela mídia digital, é utilizado para dar vazão a comportamentos opressivos ancestrais. Piadinhas torpes, desrespeito e preconceitos variados. Temos a mais sofisticada tecnologia da informação e ao mesmo tempo algo primitivo. Proliferam os linchamentos virtuais. Sem direito ou sequer oportunidade de defesa. Essa onda atinge até os poderosos ou muito ricos. Deixou de se limitar apenas a piadas racistas num momento de tédio. A proliferação de notícias sobre assédio sexual muda o comportamento das relações e interações entre homens e mulheres. Mandar bjjs (beijos) no final de e-mails à coleguinha de trabalho pode acabar em demissão ou processo por assédio. Chefe precavido só fala com a secretária do escritório com a porta do gabinete aberta; ou em companhia de outra pessoa. Piadas e palavrões do superior hierárquico resultam em indenizações. Médicos procuram consultar e examinar mulheres na presença da enfermeira. Nos Estados Unidos, beijo de cumprimento e contato físico não têm a mesma popularidade que no Brasil. A paquera virou prática proibida e, dizem os comportamentalistas, as mulheres vão sentir saudades também. Vejam no que deu a narrativa, como maior expressão literária, e a análise do discurso dos semioticistas. Como na piada de Luís Fernando Veríssimo, será melhor entrar para uma ordem religiosa oriental, que substitui o sexo pela contemplação da alcachofra.
O autor é jornalista articulista do JC.