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O Brasil antes do 'terra à vista'

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 3 min

USC/Divulgação
Reinaldo José Lopes ressalta que são inúmeros os clichês que envolvem o período pré-Cabral

A carta de Pero Vaz de Caminha é o documento que narra as impressões do escrivão português sobre a terra encontrada em 1500.

O paraíso fértil e extenso, com nativos "pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas", era o território que, posteriormente, viria a ser chamado de Brasil. Pelo menos, assim foi aprendido em época escolar.

O jornalista Reinaldo José Lopes, porém, reuniu em seu novo livro "1499 - O Brasil antes de Cabral" um conjunto de novos estudos arqueológicos que tem revelado que o Brasil, antes do "terra à vista", está longe de ser um vazio primitivo.

A convite da Universidade do Sagrado Coração (USC), o autor lançou o livro, publicado pela HarperCollins Brasil, em Bauru, no final do ano passado, no Teatro Veritas.

Na oportunidade, falou com a reportagem do JC sobre os muitos clichês que busca desmistificar com os estudos que mostram a realidade do território no período.

"O livro tem a intenção de abrir os olhos das pessoas para esse passado super-rico que elas não imaginam que existe", afirma Lopes.

Segundo o autor, quando chegaram à Terra de Vera Cruz, os portugueses encontraram uma diversidade de povos mais evoluídos do que se imagina.

"Mesmo sem o conhecimento dos metais, era um nível de vida que se pode comparar com os Gauleses do Asterix, com os gregos da época de Homero ou com os celtas da Inglaterra e não com um povo praticamente virgem e primitivo, da Idade da Pedra", comenta.

E COMO ERA?

Lopes ressalta que são inúmeros os clichês que envolvem o período pré-Cabral.

Os que se destacam são em relação à ideia de que o Brasil era um território povoado por pequenas tribos de índios que viviam, de maneira pouco organizada, em ocas rudimentares, em uma natureza completamente intocada, assando lambaris no espeto para o jantar. "Tento mostrar justamente o contrário", revela Lopes.

Segundo o jornalista, havia muita gente aqui. Somente para a Amazônia, a estimativa era de 8 milhões de pessoas. "É mais gente do que tinha no Brasil até a época do final do Império. Deveria ter de 15 a 20 milhões de habitantes no total", comenta.

Havia também organizações políticas complexas e grandes, principalmente na Amazônia.

"Chefias dominavam territórios bem grandes no interior do que hoje é o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e talvez o Interior de São Paulo. E vê-se, também, que existiram sinais na natureza brasileira pré-Cabral nas espécies de árvores da Amazônia, que são enviesadas para uso humano. Eles interferiram para que predominassem as espécies que eles usavam. Havia uma agricultura muito sofisticada, havia monumentos grandes, aldeias com vários milhares de habitantes. Ou seja, essa visão tradicional está, cada vez mais, caindo por terra", entrega.

A história dos primeiros moradores do Brasil e outros detalhes como os costumes, os artefatos, a sociedade, a culinária e o modo de vida de uma forma geral são contados no livro de forma descontraída através de documentos e fósseis, entre outros materiais.

PESQUISA

Apaixonado desde pequeno pelas sociedades antigas, Reinaldo é repórter, colunista e blogueiro da editoria de Ciência da Folha de São Paulo. Em 2017, ganhou o Prêmio José Reis, o mais importante voltado à divulgação científica no Brasil.

"A área que eu mais gosto é a arqueologia, principalmente, a brasileira que pouca gente acompanha e há muitos estudos recentes aparecendo. É uma paixão que eu quase não sei explicar", define.

Seus 15 anos de carreira foram, também, o caminho de construção da obra lançada, oficialmente, na segunda semana de agosto deste ano. "Ao longo desses anos fui acompanhando pedacinho por pedacinho de estudos. Toda vez que aparecia uma nova descoberta, eu entrevistava o autor e lia o artigo original nas revistas científicas", comenta.

Você sabia?

Luzia é o nome da considerada mais antiga mulher das Américas, cujo o crânio foi descoberto nos anos 70, nas pesquisas do naturalista dinamarquês Peter Lund, na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais.

O nome foi dado pelo biólogo Walter Alves Neves, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.

Ele se inspirou em Lucy, o fóssil de Australopithecus afarensis de 3,2 milhões de anos achado na Etiópia, em 1974.

 

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