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Lula e o seu labirinto

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O uso da retórica para tentar mudar o rumo dos acontecimentos às vezes dá certo. Churchill, com um discurso de 12 parágrafos, conseguiu convencer o Parlamento britânico de que era possível resistir aos nazistas que se preparavam para invadir a Ilha. No filme "O destino de uma nação", Lord Halifax disse que "Churchill convocou a língua inglesa e mandou-a para a guerra". Os ideais eram outros. A impressão que se tem, no Brasil de hoje, é que Lula e sua turma querem ganhar a batalha, esgrimindo palavras. Petistas jogam com a chamada "pós-verdade". A oposição faz o mesmo. Fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais. O único resultado aceito no julgamento de Lula é a absolvição do réu. Será considerado "golpe" a confirmação da sentença de Moro, na quarta-feira. A pressão vem da presidente do PT, senadora Gleisi Hoffman. Ameaçou: "para prender Lula vão ter que matar muita gente". Afrouxou - "força de expressão". Outro senador petista, Lindbergh Faria, convocou os militantes para "o enfrentamento, as lutas de rua". Em seguida, o refresco - não foi sua intenção sugerir ações fora da lei. Ainda bem. Tentar desqualificar decisões dos juízes, fora dos autos, é incompatível com as regras democráticas, ainda mais mediante violência.

Os advogados de Lula ainda terão muito trabalho pela frente. Na primeira instância, Lula foi condenado a 9 anos e três meses de prisão em regime fechado. Caso tríplex do Guarujá. Três juízes definirão o seu destino no TRF. Condenado por 2 a 1, cabem embargos infringentes. Se os próprios juízes divergem, terão que ser ouvidas as Cortes superiores. A eventual prisão vai ter que esperar. Se confirmada a condenação, há os embargos declaratórios, para dirimir dúvidas e possíveis incongruências na sentença. Depois, recursos sobre o que for decidido nos recursos. Lula repete que não conhece a palavra "desistir". Aprendeu com a sua mãe a "teimar sempre". No dia 5 de agosto, o Tribunal Superior Eleitoral determina a inelegibilidade do candidato condenado em segunda instância, com base na Lei da Ficha Limpa O candidato ainda pode recorrer ao STJ e STF. Os especialistas não duvidam que Lula chegue ao dia 20 de setembro em condições de registrar seu nome na urna eletrônica. A teima de Lula pode levar a uma crise institucional de proporções. O candidato do PT pode ganhar e não levar. É o primeiro nas pesquisas de intenções de votos. Esgotados todos os recursos, sabe-se lá quando, os votos dados a Lula serão anulados pela Justiça Eleitoral. "Golpe" - dirão.

O palavreado, como arma, vai continuar. Lula repete que "estão todos mentindo". Inclusive a imprensa. O processo, para ele, teria um forte "componente político, às vezes até com uma mistura de ódio". A pós-verdade admite que se modifiquem até os fatos históricos. Em um dos seus discursos, Lula disse que o presidente do TRF, Carlos Thompson Flores, seria bisneto do general que invadiu Canudos e matou Antônio Conselheiro. Na verdade, o desembargador é sobrinho-trineto. A patente do militar era a de coronel. Morreu em Canudos, por excesso de confiança. Achou que a batalha seria um passeio. Os 5 mil maltrapilhos fanáticos de Conselheiro enfrentaram canhões, fuzis e baionetas de peito aberto. Puseram a soldadesca para correr. Euclides da Cunha conta em Os Sertões. Outra inverdade proferida pelo réu colocava em jogo a imparcialidade do juiz João Pedro Gebran, relator dos recursos da Lava-Jato, que seria padrinho dos filhos de Sérgio Moro. Desmentiu nos autos. Um grupo de doze deputados americanos, todos do Partido Democrata, enviou uma carta ao embaixador brasileiro, em Washington, pondo em dúvida o "tratamento justo, livre e imparcial" que deveria ser garantido a Lula. No manifesto, eles dizem que "A principal acusação está baseada em uma "evidência" altamente questionável, que seria rejeitada em primeira mão pela maioria das cortes ao redor do mundo". Um dos sinais de parcialidade, refere-se à afirmação pública feita pelo presidente da Corte de Apelação, elogiando a sentença de Moro contra Lula, para ele "impecável". Prejulgou.

Em entrevista a jornalistas internacionais, o líder petista avisa que continuará com seus planos políticos e eleitorais. Prepara uma nova caravana pelo Sul do país. Quer aproveitar para fazer atos com os ex-presidentes José Mujica, do Uruguai, Cristina Kirchner, da Argentina e Fernando Lugo, do Paraguai. O périplo terá fim no centro de Curitiba, onde há um lugar chamado Boca Maldi

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