Todos nós já sabemos que Lula é vítima de uma conspiração judicial. Sérgio Moro, está quase provado, é agente do FBI. Em breve saberemos as exatas conexões dos juízes do TRF-4, Gebran, Paulsen e Laus. Com esses sobrenomes devem ser membros da elite branca de olhos azuis. Aliás, têm o biótipo dos conspiradores que vicejam no Sul separatista.
Eles não perdem por esperar. A senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, está convocando a militância; Lindbergh Farias promete resistência na terra, no ar e no mar; Pedro Stédile está em alerta máximo com seu "exército vermelho". Convocou os sem-terra, os sem-teto e os sem-tevê-com-conversor-digital. Artigos de apoio vão ser publicados no "Le Monde", no "Guardian" e no "New York Times". Nicolás Maduro, da Venezuela, vai exigir uma posição dura de organismos da ONU, contra o golpe.
Todo esse aparato bélico tem como justificativa tentar impedir juridicamente a prisão de Lula. Para o PT, a esquerda unida trabalha para manter, "a qualquer custo", a candidatura de Lula à presidência da República. Condenado em segunda instância, por colegiado de juízes, o ex-presidente fica inelegível por oito anos. Os petistas ainda não repararam que, mesmo antes do julgamento do TRF, o PcdoB já tratava de lançar Manuela DÁvila ao Planalto. Ciro Gomes, embarcou no PDT e Guilherme Boulous, do MTST, conversa com o PSOL.
As esquerdas tomaram o seu caminho sem volta. Marina Silva, faz voo solo e decide com quem fica, no segundo turno. Lula? Está fora. Pelo menos em São Paulo, Geraldo Alckmin tem como vice-governador, Márcio França, do PSB. Ele deverá disputar o Palácio dos Bandeirantes com apoio tucano, e, em troca, apoiar Alckmin para presidente. Os petistas estão cada vez mais isolados com essa insistência de manter o cadáver eleitoral de Lula sentado no cavalo, tal qual El Cid da guerra contra os mouros.
Numa eleição geral, quando se escolhem do presidente da República ao deputado estadual, compor alianças é fundamental. Pouco adianta ter 30% nas pesquisas de intenção de votos, se a rejeição - o número dos que não votam nele, de jeito nenhum - é maior que isso. O carisma messiânico do ex-presidente pode não ser suficiente para livrá-lo da cadeia. O último entendimento do plenário do Supremo foi favorável à sentença de segunda instância ser cumprida antes do "trânsito em julgado" - ou seja, esgotados todos os recursos. Na ocasião, a decisão foi apertada: 6 a 5. Com a morte de Teori Zavascki, no acidente aéreo de Paraty, seu substituo Alexandre de Moraes estaria inclinado a votar na fórmula conciliatória de Dias Tóffoli, ou seja, passar do 2º grau para o STJ o estágio de definição do início do cumprimento da sentença do réu. Os aliados políticos de Lula puseram tudo a perder. O PT, em nota oficial, classificou o julgamento de "farsa jurídica". Cármen Lúcia, em seu discurso na solenidade de reinício do ano judiciário, mandou um recado claro: é "inadmissível", "inaceitável" agredir a Justiça. A presidente do STF já revelara antes, sua má vontade em colocar o assunto novamente em pauta, só por causa do Lula. Seria "apequenar" a Corte.
Se o STF cometer essa reciclagem - subir o sarrafo para o STJ -, será acusado de agir sob encomenda de Lula e bombardear a Lava-Jato. Casuísmo flagrante. Abalaria o judiciário. Mais do que já está. Seus ministros são caçados nos aeroportos e aviões de carreira feitos "ratazanas prenhes" (Nelson Rodrigues). Lula, condenado em segunda instância, se puder concorrer em outubro, fulmina a regra por meio da qual deveria ser preso e, em efeito dominó, a Lei da Ficha Limpa que o tornaria inelegível. Para os notáveis do PT, excluir o ex-presidente do processo eleitoral "lançaria o país numa crise política e institucional de consequências imprevisíveis, mas inevitavelmente trágica". Será?
A única coisa a favor de Lula é a nostalgia de um tempo em que o PT representava um sonho de esperança. Esse tempo passou. Esse tempo acabou. Nas mortais palavras de Antônio Palocci, "Nós, que nascemos diferentes, que fizemos diferente, que sonhamos diferente, acabamos por legar ao país algo tão igual ou pior dos costumes políticos".