Pelos idos de 1960, já na entrada da adolescência, sentia que os meus sapatos, principalmente o do pé direito, parecia o que se chamava de "boca de sapo", trazendo desconforto para os pés. Diante desta situação e meio temeroso, mostrei ao meu pai Edgard Barbieri a "boca de sapo". Ouvi dele mais ou menos nessas palavras, o seguinte: "Pegue ali na despensa aquele pé direito sem uso que tem a sola aproveitável, remova com cuidado e a repregue no seu com tachinhas utilizando o pé de ferro, cortando ao redor os excessos com um canivete afiado, para usar ainda um bom tempo".
Nasci numa família típica da roça que tinha na produção do café o sustento básico mais as culturas de milho, mandioca, feijão, cana, arroz e criações de gado e galinhas e mantinha muitas regras de vida herdadas dos quatro avós imigrantes italianos. Filho mais novo de uma prole de oito ou nove pelo que minha mãe Palmira Benvinuti às vezes comentava. À primeira vista, achei a atitude de meu pai um pouco estranha e rude.
Piratininga possuía vários bons sapateiros. Mesmo assim. topei a parada, sem deixar de pensar num par de sapatos novos. Segui aquele roteiro para o conserto e confesso que me senti valorizado pelo meu primeiro trabalho. Esteticamente, não ficou "aquelas coisas", mas deu para o gasto e para me sentir útil. Alguns meses depois ganhei botinas novas.
Pela minha cabeça de adolescente/aborrecente, com a personalidade ainda em formação, seria impossível entender a extensão e a profundidade daquele fato e o reflexo positivo que causaria no meu crescimento psicológico e intelectual como cidadão responsável e honesto, perfil pessoal muito em falta hoje no meio político. Serviu como lição positiva de vida. O esforço para vencer dificuldades que certamente virão para todos com o passar dos anos. As etapas difíceis vencidas funcionam como "podiuns" anônimos.
Hoje vivemos numa sociedade perigosamente consumista que não mede as consequências dos excessos e exageros praticados diariamente no trato social e no trato ambiental. Na verdade, o conceito básico filosófico da Meia Sola pode ser aplicado para o bem das pessoas em todos os aspectos da vida. Menos para a morte, tudo tem conserto. As pessoas que descartam objetos de todo tipo em áreas públicas, indevidamente, desrespeitam o solo em que pisam e cospem no próprio prato que comem.
O aperto financeiro vivido hoje por grande parte das 5.570 Prefeituras Municipais do país surgiu e cresceu mais por consequência das gastanças desordenadas promovidas já há décadas pelas administrações desses municípios, envolvendo corrupção e planejamento administrativo deficiente. Nesses casos, nem a melhor Meia Sola resolve. Exige a substituição completa da sola ou da base, ou melhor falando, na hora do voto só ter um pensamento a favor do Brasil: - renovar a composição política em todos os níveis da administração pública brasileira infestada de agentes públicos corruptos, corrompidos e de políticos da mesma laia.
Todo o caminho de investigação árdua percorrido pela Operação Lava Jato precisa ter o apoio e continuidade através da atitude consciente dos eleitores diante das urnas. O Poder Judiciário já condenou muitos corruptos por seus crimes e mais uma vez cumpriu sua parte através do Órgão Colegiado do TRF-4 de Porto Alegre na histórica decisão quando confirmou a condenação do juiz Sergio Moro ao ex-presidente Lula aumentando-a em três anos.
A reforma política efetiva e profunda que o Brasil precisa realizar sempre foi adiada pelos ocupantes do poder que não aceitam perder poder de barganhas e negociatas em proveito próprio e regalias desmedidas em detrimento da maior parte da população que amarga dificuldades em todas as situações. As eleições de 2018 podem representar um divisor de águas para o verdadeiro fortalecimento da Democracia Brasileira.
Agradeço a atenção.