Bairros

A vida nas ruas de terra em Bauru

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 9 min

Marcele Tonelli
Lamaçal e erosões na rua Projetada Segunda, no Parque Giansante

Uma estimativa da Secretaria Municipal de Obras aponta que, em Bauru, mil ruas, distribuídas em diversos bairros, ainda não possuem o esperado asfalto. E a situação é pior em pelo menos: Águas Virtuosas, Parque Giansante e Val de Palmas, que possuem 100% de ruas de terra em toda a sua extensão.

E não há nem mesmo previsão de quando o benefício pode chegar a estes locais por enquanto porque são bairros não inseridos no Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal, voltado à área, chamado PAC Asfalto ou PAC Pavimentação, que executa o serviço em ruas de Bauru desde o início de 2016 (leia mais na página 3).

Enquanto isso, moradores destas três regiões e que convivem com a promessa da pavimentação há mais de uma década continuam convivendo com dificuldades diárias impostas pela falta da estrutura. E o verão, inclusive, é a época do ano em que os problemas aumentam, por causa das lama e erosão causadas pela chuva. 

O JC nos Bairros percorreu estes três bairros para ouvir o que os moradores têm a contar sobre o assunto.

SEM COMPRA DO MÊS

Marcele Tonelli
Quadra 4 da rua Hélio Canho está entre as mais complicadas no Águas Virtuosas

Tarefas simples da rotina de uma casa como ir ao mercado, para a faxineira Simone Cristiane Bueno de Aguiar, 44 anos, viraram uma difícil missão quando ela se mudou, em 2011, com o marido, o açougueiro Valdir Bastos, 40 anos, para o Águas Virtuosas.

"Compra do mês não fazemos há anos. Vamos toda semana e pegamos de pouco a pouco somente o necessário, porque não temos mais carro, ele quebrava muito nos buracos. Com a moto, dá para desviar melhor", comenta a moradora, mostrando o carnê do IPTU em dia.

De vez em quando, caminhões da prefeitura aparecem no local para arrumar a rua Agenor Lopes e jogar cascalhos, que evitam o atoleiro. Mas as chuvas estragam o trabalho. "Sair para passear em família é muito difícil. É do trabalho e da escola para casa, sinto pelos meus filhos. Mas aqui estamos seguros e não temos que pagar aluguel", acrescenta a moradora.

SONHOS DISTANTES

Filhos de Valdir e Simone, Alanna Aguiar Bastos, de 8 anos, conta que seu sonho é fazer curso de ballet,no contraturno da escola, mas que as condições de vida da família a impediriam, até porque o bairro não possui circular.

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Rua Agenor Lopes vira lamaçal e reduto de erosões em épocas de chuva

"Só temos a moto e meus pais trabalham, é difícil, moramos longe. Mas eu gostaria muito de aprender ballet um dia", afirma a garota.

Aos 14 anos, o irmão dela Rodrigo Bastos, também planeja fazer cursos no contraturno escolar para se aperfeiçoar e aprender uma profissão. "Mas sem circular não dá. Minha mãe acha perigoso eu caminhar até a rodovia para pegar o único ônibus que passa", pontua.

Incômodo

A auxiliar de Thaís Cristina dos Santos, 32 anos, mora há apenas três meses no Águas Virtuosas, na companhia do Marido, Mácio Pinto, 40 anos, e dos filhos Thayane, de 8 anos, e Maxiel José de 2 meses. Apesar de gostar do local, ela relata incômodo por causa da falta de circulares e de estrutura no bairro.

"Aqui é bom porque é tranquilo e podemos andar de cabeça erguida sem medo de assalto. Mas tem que andar bastante para pegar ônibus, principalmente em dia de chuva", elenca Thaís, moradora da quadra 17 da rua Elipídio Carlos Petroni.

Val de Palmas: desafios do cotidiano

Morar no Parque Val de Palmas é um desafio diário. Tanto no verão quanto em estações secas, a rua de terra e sem estrutura atrapalha qualquer simples atividade do dia. É o que dizem algumas pessoas que há anos residem por lá.

Rafael Batista, de 27 anos, por exemplo, já até desistiu de ter o próprio carro por causa das erosões. Mesmo com risco de quedas, ele opta por moto e se arrisca em meio às crateras que se formam em frente à sua casa, no cruzamento da rua Lindonor de Souza Oliveira com a Professora Lacy Jabur Damião.

Marcele Tonelli
Rafael Batista e Ruth Batista se arriscam em meio às erosões da rua Lindonor de Souza Oliveira com a Professora Lacy Jabur Damião para conseguir sair de casa

"Tem que ter paciência para andar aqui, eles (prefeitura) passam o caminhão aterrando a rua, mas qualquer chuva estraga. De moto é mais fácil desviar", conta.

"Já perdi até entrevista de emprego tirando lama de dentro casa, porque a rua vira um rio", completa Batista, que mora no local com mais 10 familiares.

LAVA PÉ

E na casa dos Batista, assim como de outros moradores de rua de terra, a regra é clara. Dentro de casa, somente os pés descalços, por causa da terra. Os calçados, aliás, os chinelos, que são os modelos mais utilizados pela facilidade de limpeza, ficam sempre da porta pra fora. Na porta de entrada da casa há até um espaço específico adaptado pela família para a lavagem dos pés.

"Se a gente não faz isso, é terra pra todo lado e a casa fica suja", mostra Rebeca Batista de Campos, de 13 anos.

DIFÍCIL DE IR E VIR

A mesma dificuldade é relatada pela moradora Aparecida Matins dos Santos, de 70 anos. Moradora do local desde 2014, ela conta que, em dias de chuva, não sai de casa pelo medo de escorregar na lama e cair em algum buraco. "Faço supletivo à noite e, ontem mesmo (segunda-feira), faltei na aula por isso. O caminhão de lixo é o único que às vezes circula por aqui, porque não tem ônibus. Então, o melhor é ir a pé", cita a idosa, pouco antes de saltar para atravessar uma erosão na quadra 3 da rua Lacy Jabur Damião.

Roupa limpa que suja com a terra

Apesar de o verão ser a época de mais sofrimento dos moradores das ruas de terra, estações secas, como o inverno, também são grande problema nesses locais. Há quase três décadas morando no Val de Palmas, a matriarca da família Batista, dona Jussara, de 48 anos, conta que lavar roupa em dias secos é uma saca para quem mora por lá. "Qualquer carro que passe na rua levanta um poeirão e suja toda a roupa do varal. E a gente respira essa poeira, o que é pior", critica a moradora.

A saga para tirar e colocar o carro da garagem

Dia de chuva é de trabalho extra em casa para o pedreiro José André Bezerra, 59 anos, morador da quadra 5 da rua Benedito Augusto Fonseca de Godoy. Sem alguma estrutura, a rua vira lama que, na melhor das hipóteses impede a saída ou entrada dele com o carro e, na pior das hipóteses, invade a casa. "Se eu não faço isso (limpeza da lama) para entrar, ele (carro) atola. Já estraguei com a embreagem por causa disso. Se chove forte então, aí a lama entra e tenho que cancelar meu dia de trabalho para limpar a casa", critica o morador. 

No Giansante, quando não é poeira é atoleiro

60% a menos de clientes. É isso que o técnico em eletrônica Ricardo Golveia diz ter "ganho" ao mudar-se da rua Marcos de Paula Rafael para um imóvel próprio, na quadra 4 da rua de terra Rivelino Fernandes, no Parque Giansante. Para ele, uma das principais razões é a rua de terra.

"Por causa da poeira, o cuidado tem que ser redobrado com a higienização dos aparelhos. Mesmo assim já cheguei a limpar TV na frente do cliente. É muito chato. Além disso, também tenho freguês que para o carro na rua de asfalto e vem a pé segurando o equipamento para não sujar o veículo", acrescenta Ricardo.

Ele trabalha e reside no mesmo endereço e divide com a frustração do ponto comercial o desapontamento com a compra do imóvel em rua sem nem galeria pluvial.

"Quando chove forte, a rede de esgoto entope de terra e a água fétida volta pelo encanamento, até parei de construir a casa por causa disso", lamenta o morador.

ATOLEIRO

A algumas quadras acima, na rua Dorvalino Melges, a auxiliar de limpeza e funkeira Carla Karina de Lima, de 31 anos,  mostra o carro de seu padrasto quebrado há meses por causa das erosões na rua do bairro.

"Ele acabou comprando outro e desistindo de consertar este que quebrou em buracos aqui. Quando chove é mesmo um problema dirigir, porque além de atolar, as poças molham o motor", critica Carla.

Na rua Doutor João Pedro Vitório Filho, por exemplo, as erosões transformavam a condução de veículos em uma verdadeira missão focada no desvio de grandes buracos, na última semana. Para entrar ou sair da garagem, era preciso mais do que atenção redobrada.

"O pessoal pega a inchada e arruma para poder entrar e sair. A prefeitura até passa e arruma a rua, mas qualquer chuva que dê, os buracos (erosões) voltam", reclama o empresário Mário Sérgio dos Santos Júnior, 30 anos. "Um caminhão baú já até tombou nesta rua. Para dizer a verdade, dá vergonha essa situação. Quando chove não chamamos ninguém para vir em casa porque é só transtorno", acrescenta o morador.

'Boom'

Moradora Parque Giansante há quase dez anos, a do lar Arlete Maria Barbosa, 50 anos, conta que o bairro viveu um '"boom" nos últimos três anos, com a construção de várias casas e abertura de mais ruas.

"Só aumenta e a estrutura e o asfalto que é bom não chega", cita. E as promessas por lá não são só referentes ao asfalto. "Dizem que, na prefeitura, consta que o bairro tem asfalto, mão sei se isso é verdade. O que sei é que eles prometeram uma praça aqui e até agora nada", reivindica a do lar, que reside na quadra 3 da rua Alcides Domingos dos Santos.

Secretaria de Obras: asfalto depende de emendas

Os bairros alvos desta reportagem não estão contemplados pelo PAC Asfalto (veja no quadro abaixo).

Segundo o secretário de Obras de Bauru, Ricardo Olivato, são bairros que dependerão, nos próximos anos, de verbas específicas, oriundas de emendas parlamentares para obterem a pavimentação.

"Me parece que há algo em relação ao Val de Palmas, haverá disponibilização orçamentária para asfaltar cinco ruas. Mas com relação ao bairro todo não temos previsão", cita Olivato.

Já o Bairro Águas Virtuosas, assim como o Jardim Manchester, necessita da resolução de algumas situações conflitantes, como áreas ocupadas de forma irregular, antes de tornar-se pretendente ao asfalto.

Sobre o Parque Giansante, Etelvino Zacarias, diretor da Obras, respondeu que a informação de que o bairro constaria como região asfaltada na prefeitura é falsa.

Atualmente, as equipes da secretaria trabalham na pavimentação de ruas na Vila São Paulo.

"Entendemos as dificuldades dos moradores desses bairros e damos prioridade a isso. Mas antes de fazer o omelete, é preciso quebrar o ovo. Temos que fazer as galerias e, para isso, não pode estar chovendo", afirma o secretário.

PAC Asfalto: conclusão até junho de 2019

Os bairros contemplados pelo PAC Asfalto devem ter a pavimentação concluída até junho de 2019, conforme a Obras.

"Atualmente, as empresas estão nas regiões do Ouro Verde, Tangarás e Jardim Vitória, Pousadas 1 e 2, Santa Cândida, Parque Jaraguá e Santa Edwirges", cita o secretário de Obras, Ricardo Olivato.

 

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